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Veganismo para Adultos: o fim da ilusão, o peso da realidade e a urgência de amadurecer

bolha vegana

Relutei durante muito tempo antes de escrever este texto. Não por falta de convicção, mas por receio. Receio de que uma crítica interna, vinda de alguém que está há mais de duas décadas dentro do movimento vegano, pudesse ser usada como munição contra ele. Receio de causar danos a uma causa que, apesar de todas as suas contradições, continua sendo uma das poucas respostas éticas e estruturais a alguns dos maiores problemas do nosso tempo. Ainda assim, depois de atravessar 2025 assistindo a uma sucessão de análises superficiais, discursos defensivos e negações explícitas da realidade por parte de influenciadores, empresas e até lideranças do movimento, tornou-se impossível permanecer em silêncio.

Sim, o veganismo — mais precisamente o mercado plant-based — está em crise. E essa crise não é filosófica nem moral. Ela é, sobretudo, econômica, mercadológica e estrutural. Grandes empresas que receberam milhões, às vezes bilhões, em investimentos de fundos de risco para desenvolver produtos à base de plantas estão hoje em dificuldades financeiras severas. Algumas já fecharam as portas. Outras sobrevivem artificialmente, queimando caixa, esperando um milagre que não virá.

Este artigo não tem a pretensão de decretar o fim do veganismo. Muito pelo contrário. O que morreu foi a fantasia: a ideia de que bastaria replicar produtos de origem animal em versões vegetais, empacotá-los com marketing agressivo e colocá-los nas gôndolas para que, como num passe de mágica, o mundo se tornasse vegano — ou ao menos plant-based. O que estourou foi a bolha.

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A anatomia de uma bolha anunciada

estouro da bolha veganaBolhas financeiras não são novidade. Elas surgem quando o mercado identifica uma oportunidade promissora, o capital entra em massa para não “perder a onda” e os investimentos passam a superar, em muito, a demanda real. Quando a conta chega, já é tarde: o dinheiro foi gasto, as expectativas infladas, e as empresas começam a quebrar.

Com o mercado plant-based não foi diferente. Durante anos, construiu-se a narrativa de um crescimento exponencial e inevitável. Pesquisas patrocinadas por ONGs e grupos de interesse passaram a divulgar números inflados de vegetarianos e veganos, explorando deliberadamente a ignorância conceitual da população. Pessoas que consomem peixe ou frango se declaram vegetarianas. Outras acreditam que veganos consomem ovos e laticínios. Esses “detalhes” nunca foram devidamente esclarecidos nas pesquisas — e não por acaso.

O mercado, alheio a essas nuances, comprou a história. Os fundos investiram. As startups se multiplicaram. Como muitos dentro do movimento, também reproduzi no passado dados e narrativas que à época pareciam sólidos, mas que hoje se revelaram frágeis à luz dos acontecimentos. Os alertas existiram. Foram ignorados. A crença era simples e perigosa: bastava substituir produtos, não hábitos.

Dados do Google Trends mostram que o interesse pelo veganismo atingiu seu pico em dezembro de 2019. Em seguida, a curva despenca. A pandemia de COVID-19 não criou a crise, mas acelerou seu colapso. A partir de 2020, a mídia foi monopolizada por uma única narrativa, só se falava em COVID-19,  a economia global encolheu e o consumo precisou ser contido. Como já havia ocorrido em 2008, em momentos de crise as pessoas recuam para hábitos antigos — quase sempre mais baratos, quase sempre não veganos.

O resultado foi a tempestade perfeita: um mercado ainda imaturo, dependente de marketing constante, exposto a uma retração econômica global.

Os custos humanos de uma ilusão ética

coins2Talvez o aspecto mais incômodo de toda essa história seja o impacto sobre pequenos empreendedores. Pessoas que investiram suas economias em negócios plant-based acreditando em dados frágeis, quando não abertamente fabricados. Foram tratados como infantaria numa guerra ideológica e mercadológica: enviados à linha de frente, descartáveis, substituíveis.

Para um movimento que se apresenta como ético, a ausência de empatia com essas perdas é ensurdecedora. Conversei com lideranças no passado que sabiam da fragilidade dos números, mas preferiram acreditar nas próprias mentiras. A narrativa era conveniente demais para ser abandonada. E agora, como acontece após toda bolha, a credibilidade foi junto com o dinheiro.

O veganismo não é imune a fake news. Nunca foi. Mas poucas narrativas falsas causaram tanto dano estrutural quanto esta. A confiança do mercado e da opinião pública não se reconstrói da noite para o dia. A internet sobreviveu à sua bolha, mas levou anos para voltar a atrair investimentos sérios. Com o plant-based, não será diferente.

Onde o mercado errou — e muito

onde o mercado vegano errouOs problemas vão além da maquiagem estatística. Houve falhas estratégicas profundas. Quantias astronômicas foram gastas em marketing, enquanto o desenvolvimento real dos produtos ficou em segundo plano. A lógica era rudimentar: misturar proteínas vegetais, moldar em formatos familiares e chamar de carne, queijo ou leite.

Para compensar limitações de textura e sabor, recorreu-se massivamente a aromas industriais. Criou-se uma dependência de poucos fornecedores, inflacionando custos. O resultado foi uma avalanche de produtos ultraprocessados, caros e nutricionalmente questionáveis.

E o preço, talvez o pecado capital. Produtos plant-based chegam a custar três ou quatro vezes mais que seus equivalentes de origem animal. Não apenas por subsídios à pecuária, mas porque startups financiadas por fundos de risco precisam maximizar lucro. O objetivo nunca foi massificar; foi encontrar o “sweet spot” de consumidores dispostos a pagar mais. A comoditização — condição essencial para preços baixos — jamais esteve no horizonte.

Sem concorrência real, com poucos players e margens protegidas, o setor engessou. Inovação virou discurso, não prática.

Os verdadeiros motores de mudança

Pelos animais

pelos animaisA conversão ética atingiu, ao menos por ora, um teto. A maioria das pessoas já sabe como os animais sofrem — e escolhe ignorar. Isso não invalida a educação ética, mas exige realismo: ela alcança poucos, geralmente aqueles que se tornam ativistas e lideranças. O movimento precisa desse sangue novo, continuamente, para não envelhecer e se fossilizar.

Pela saúde

pela saudeAs evidências científicas a favor de dietas plant-based são cada vez mais robustas. Mas a medicina e a nutrição defendem majoritariamente dietas integrais, pouco processadas. Aqui está o conflito: produtos ultraprocessados vendem; alimentos simples exigem tempo, aprendizado e mudança cultural. O caminho talvez esteja no meio — consumo ocasional de processados mais “limpos”, com base diária em alimentos integrais. O problema é que esse modelo não sustenta startups movidas a crescimento infinito.

Pelo planeta

pelo planetaEste é hoje o motor mais potente. A urgência climática empurrou governos e fundos a apoiar mudanças alimentares. Mas a tendência mais promissora não está em hambúrgueres de laboratório: está na valorização de pratos tradicionais, facilmente veganizáveis, com ingredientes locais e acessíveis. Milho, batata, tomate — todos são exemplos históricos de alimentos que cruzaram continentes e se tornaram universais. Essa estratégia é resiliente a crises econômicas e menos dependente de capital especulativo.

 

Um alerta aos investidores: carne de laboratório é um engodo

carne de laboratorio e uma furadaÉ preciso dizer sem rodeios: a chamada carne de laboratório é, hoje, uma promessa vazia. A tecnologia necessária para produzir carne cultivada em escala, de forma barata e automatizada, está a décadas de distância. Os “bifinhos” apresentados são protótipos artesanais, viabilizados a custos absurdos. Recursos investidos aqui seriam muito mais bem empregados no desenvolvimento de proteínas vegetais acessíveis ou em alternativas como carnes à base de micélio, um campo realmente promissor.

O caminho esquecido: produtos plant-based de código aberto

Uma das grandes oportunidades perdidas foi a recusa da indústria em aprender com iniciativas abertas. Inspirar-se no modelo de software livre — compartilhando processos, receitas e técnicas — poderia ter acelerado a comoditização e reduzido custos.

Um exemplo emblemático vem do trabalho de The Artisan Vegan Cheese e, mais tarde, The Vegan Creamery. Ao democratizar o conhecimento sobre queijos, leites e cremes vegetais, essas obras mostraram que é possível criar produtos excelentes, pouco processados e replicáveis globalmente. Era esse tipo de experimentação que a indústria deveria ter adotado como base. Preferiu o atalho.

Um registro necessário
base soida para crescer o veganismo

Este texto não oferece respostas definitivas. Ele é, antes, um registro histórico e uma autocrítica. O que se perdeu foi a camada ilusória, inflada e marketeira. O que ficou é a realidade — dura, imperfeita, mas sólida. O movimento avançou muito em 20 anos, mas ainda está longe de um “mundo vegano”.

Aos mais jovens: a ansiedade por mudanças imediatas é compreensível. Mas transformações estruturais levam décadas. Planejem a longo prazo. Persistam. O valor do que é conquistado lentamente costuma ser maior — e mais duradouro.

O veganismo não morreu. Ele apenas chegou à idade adulta.

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