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Schopenhauer e os Animais: A Raiz Filosófica Esquecida do Movimento Vegano

Schopenhauer

Como um filósofo do século XIX antecipou, com espantosa lucidez, o debate moral que hoje redefine nossa relação com os animais

Em um tempo em que os animais eram amplamente tratados como objetos — instrumentos de trabalho, alimento ou mero entretenimento —, Arthur Schopenhauer escreveu algo que, ainda hoje, soa quase subversivo. Ao contrário da tradição filosófica dominante no Ocidente, ele ousou afirmar que os animais não apenas importam moralmente, como também devem ser incluídos no núcleo da ética.

O trecho analisado revela um dos momentos mais contundentes dessa virada intelectual. Mais do que um comentário isolado, trata-se de um ponto de inflexão: a emergência de uma ética que atravessa a barreira entre espécies — algo que, mais de um século depois, se tornaria central ao movimento vegano.

A ruptura com a tradição: quando a moral deixa de ser exclusivamente humana

Durante séculos, a filosofia europeia sustentou uma ideia confortável: os seres humanos ocupam um lugar moral único, enquanto os animais existem fora desse campo. Schopenhauer rejeita essa noção com vigor raro para sua época.

Ele escreve:

“A suposta ausência de direitos dos animais […] é uma revolta grosseira e uma barbárie do Ocidente.”

Essa frase, traduzida do original alemão, carrega um peso histórico considerável. Em poucas palavras, o filósofo desmonta uma tradição que vinha desde René Descartes, para quem os animais eram máquinas sem consciência.

Schopenhauer vai além: ele não apenas discorda — ele acusa. Para ele, negar relevância moral aos animais não é um erro neutro, mas uma falha ética profunda. Essa distinção é crucial para entender por que seu pensamento ressoa tanto com o veganismo contemporâneo.

O que está em jogo aqui é a ampliação do círculo moral — um conceito que, mais tarde, seria desenvolvido por pensadores modernos, mas que já aparece aqui em forma embrionária.


A unidade entre humanos e animais: uma ideia radical para o século XIX

Se há uma tese central no texto de Schopenhauer, é esta: humanos e animais compartilham a mesma essência.

Ele afirma:

“O essencial […] em animais e humanos é o mesmo […] o que os distingue não está na essência, mas apenas no intelecto.”

Essa passagem é, do ponto de vista histórico, explosiva.

Ao contrário de seus contemporâneos, Schopenhauer não vê a razão como aquilo que define o valor moral. Em vez disso, ele localiza a essência comum naquilo que chama de “vontade” — uma força vital compartilhada por todos os seres.

Essa ideia desmonta o argumento clássico de superioridade humana baseado na racionalidade. Se a diferença é apenas de grau (mais ou menos inteligência), e não de essência, então a exclusão moral dos animais perde sua base.

Hoje, estudos em etologia e neurociência confirmam algo que Schopenhauer já intuía: muitos animais possuem formas complexas de percepção, emoção e até autoconsciência.


A compaixão como fundamento da ética — e sua extensão aos animais

Talvez o elemento mais influente do pensamento de Schopenhauer para o veganismo seja sua defesa da compaixão como base da moral.

Ele escreve:

“A compaixão pelos animais está tão intimamente ligada à bondade de caráter que se pode afirmar com segurança que quem é cruel com os animais não pode ser uma boa pessoa.”

Essa afirmação ecoa diretamente no discurso vegano contemporâneo. A ideia de que a forma como tratamos os animais reflete nosso caráter moral tornou-se um dos pilares do movimento.

Mas Schopenhauer vai além da teoria. Ele recorre a exemplos concretos — como o caçador que se arrepende após ver o sofrimento de um macaco, ou o elefante jovem que tenta acordar a mãe morta — para demonstrar que os animais não são apenas seres vivos, mas sujeitos de experiência.

Essas narrativas têm uma função clara: tornar o sofrimento animal visível e emocionalmente inescapável.


O nascimento da proteção animal moderna

Um dos aspectos mais fascinantes do texto é seu registro quase jornalístico do surgimento das primeiras leis de proteção animal.

Schopenhauer destaca o papel da Inglaterra:

“Entre os ingleses […] a lei levou muito a sério a proteção dos animais contra maus-tratos, e o vilão deve realmente expiar por ter transgredido contra os animais, mesmo que sejam sua propriedade.”

Ele menciona também a criação da Society for the Prevention of Cruelty to Animals, uma das primeiras organizações do tipo no mundo.

Aqui, vemos algo essencial para a história do veganismo: a transição da ética para a política.

A compaixão deixa de ser apenas uma virtude individual e passa a ser institucionalizada em leis e organizações. Esse movimento, iniciado no século XIX, pavimentou o caminho para os debates atuais sobre direitos animais.

O próprio uso da expressão “direitos dos animais” no texto, ainda que em um sentido mais próximo de proteção legal do que de direitos plenos, revela o quanto essa ideia já começava a ganhar forma.


Limites e contradições: um pensador à frente de seu tempo — mas não além dele

Apesar de sua visão progressista, Schopenhauer não era vegetariano — e tampouco defendia a abstenção total de produtos animais.

Ele escreve que o consumo de carne pode ser necessário, especialmente em regiões frias, argumentando que o sofrimento humano seria maior sem essa prática .

Aqui, vemos o limite histórico de sua filosofia.

Essa posição reflete as condições do século XIX, quando uma dieta sem produtos animais era muito mais difícil de sustentar. Ainda assim, o próprio princípio de compaixão que Schopenhauer defende abriria caminho, no futuro, para a rejeição completa da exploração animal.

Em outras palavras: ele não chegou ao veganismo, mas tornou o veganismo possível.


O legado: por que Schopenhauer importa hoje

O movimento vegano contemporâneo costuma ser associado a questões ambientais, de saúde ou direitos animais. Mas sua raiz mais profunda é filosófica — e é aqui que Schopenhauer se torna indispensável.

Ele foi um dos primeiros pensadores ocidentais a:

  • incluir os animais no campo da moral

  • fundamentar a ética na compaixão, não na razão

  • denunciar a crueldade como falha moral, não apenas prática

  • reconhecer a continuidade entre humanos e outros seres

Esses elementos formam a espinha dorsal do pensamento vegano atual.

Compreender Schopenhauer não é apenas um exercício histórico — é entender como chegamos até aqui.


Conclusão: uma voz do passado que ainda desafia o presente

Ler Schopenhauer hoje é um exercício desconfortável — e necessário.

Ele nos obriga a encarar uma pergunta simples, mas profundamente perturbadora: se reconhecemos o sofrimento dos animais, como justificamos ignorá-lo?

Mais de 180 anos depois, essa questão permanece aberta.

O veganismo moderno pode ter novas ferramentas, novos argumentos e novas urgências. Mas, em sua essência, ele ainda ecoa a mesma intuição que Schopenhauer formulou com clareza incomum:

a de que a compaixão não pode ter fronteiras arbitrárias.

E que, talvez, o verdadeiro progresso moral comece exatamente onde deixamos de olhar apenas para nós mesmos.


Fonte:
Trecho de Die beiden Grundprobleme der Ethik (3ª edição, 1881), originalmente redigido por Arthur Schopenhauer em 1839, a partir da seção 7 do §19 (“Sobre o fundamento da moral”), em tradução para o inglês realizada por Christian Koeder e posteriormente vertida para o português neste artigo. Referência complementar: artigo “Confirmations of the Expounded Basis of Morality (Schopenhauer, 1839/1840)”, de Christian Koeder.

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