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Marly Winckler, socióloga, tradutora e Presidente Honorária da União Vegetariana Internacional Marly Winckler
Entrevista · Guia Vegano

Marly Winckler: a socióloga que desenhou o mapa do vegetarianismo no Brasil

Fundadora da Sociedade Vegetariana Brasileira, organizadora do primeiro Congresso Vegetariano Mundial na América Latina e presidente da União Vegetariana Internacional por uma década, ela fala ao Guia Vegano sobre três décadas de ativismo, política pública, tradução e o futuro de um movimento que ajudou a tirar da marginalidade.

 

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Em novembro de 2004, vegetarianos de dezenas de países chegaram ao Costão do Santinho, em Florianópolis, para o 36º Congresso Vegetariano Mundial da União Vegetariana Internacional (IVU). A entidade foi fundada em 1908, e era a primeira vez que seu congresso acontecia na América Latina. Poucos ali sabiam que, para tornar aquela semana possível, tinha sido preciso criar uma instituição inteira do zero. A Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) nasceu em 2003 com essa missão quase logística e está em atividade até hoje.

Por trás das duas coisas estava Marly Winckler.

Ela nasceu em 1954 em Cunha Porã, no oeste catarinense, numa região de agricultura de subsistência em que criar animais para consumo fazia parte da rotina das famílias. Começou Arquitetura em Porto Alegre, viveu dois anos em Londres e também morou na Índia, e formou-se em Ciências Sociais pela UFRGS em 1982. Depois fez especialização em Tradução na PUC-Rio. Tornou-se vegetariana em 1983, por influência do ideário teosófico, e vegana em meados dos anos 1990, depois de acompanhar em Haia os debates da IVU sobre a presença de ovos e laticínios em eventos vegetarianos.

Foi também pioneira da internet brasileira. Em 1997, criou o Sítio Vegetariano, primeiro site sobre vegetarianismo em língua portuguesa, e as listas de discussão Veg-Brasil e Veg-Latina, numa época em que falar de veganismo significava trocar e-mails por conexão discada.

Assumiu, em 2000, a representação da IVU para a América Latina e o Caribe, função que exerceu até 2016. Em 2011, tornou-se presidente da IVU, cargo que ocupou em um primeiro mandato até 2014 e, novamente, de 2018 a 2025. Também presidiu a SVB de 2003 a 2015. Nesse período, com uma estrutura sustentada essencialmente por trabalho voluntário, implantou projetos que permanecem ativos até hoje:

2009Segunda Sem CarneLançada em parceria com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, fez da capital paulista a segunda cidade do mundo a apoiar oficialmente uma campanha desse tipo, depois de Gante, na Bélgica — e a primeira a adotar refeições vegetarianas estritas. Já em 2011, ainda sob a gestão de Marly Winckler na SVB, a campanha chegou à rede municipal de ensino paulistana, responsável por cerca de 2 milhões de refeições diárias, alcançando a escala que fez dela a maior campanha de redução do consumo de produtos de origem animal do mundo.
2013 Selo Vegano Programa de certificação de produtos criado para identificar de forma clara e confiável aqueles que atendem aos critérios veganos, facilitando a escolha dos consumidores e, ao mesmo tempo, estimulando empresas a desenvolver e ampliar linhas sem ingredientes de origem animal.
2014 Programa Opção Vegana Criado para ampliar de forma prática a oferta de refeições veganas em restaurantes, lanchonetes, hotéis e outros estabelecimentos. A proposta era trabalhar diretamente com os responsáveis pelos locais, ajudando-os a incorporar opções veganas ao cardápio, capacitar equipes e perceber que esse público representava uma demanda real e crescente.
Desde 2006 Congressos Vegetarianos Brasileiros Encontros nacionais promovidos pela SVB desde o início com uma programação ampla, reunindo palestras, debates, feira, gastronomia, ativistas, profissionais, pesquisadores, empresas e o público em geral. Posteriormente, Marly mudou o nome de Congresso Vegetariano Brasileiro para VegFest, uma denominação mais curta e contemporânea para um formato que já existia desde as primeiras edições.

Levou a causa animal também à Ordem dos Advogados do Brasil, com dois eventos. O primeiro foi em 2013, na OAB do Distrito Federal: foi o primeiro evento sobre direitos animais realizado no âmbito da Ordem. Em dois anos, 14 das 27 seccionais já tinham comissões próprias sobre o tema. O segundo foi em 2015, na OAB Nacional: o I Fórum de Defesa dos Direitos dos Animais, que marcou a instalação da primeira Comissão Especial de Defesa dos Direitos dos Animais do Conselho Federal. Nessa comissão, Marly tomou posse como Consultora Especial.

Na IVU, foi a primeira brasileira e a terceira mulher a presidir a organização, em dois mandatos: 2011–2014 e 2018–2025. Nesse período, coorganizou, em parceria com associações vegetarianas afiliadas, dezenas de VegFests em diferentes partes do mundo e coordenou, entre outras iniciativas, o Guia de Nutrição Vegana para Adultos da IVU, de autoria do médico Eric Slywitch. Em 2009, na COP15, em Copenhague, apresentou a palestra A Destruição da Floresta Amazônica pela Pecuária, que lhe rendeu uma entrevista ao The Guardian. É hoje Presidente Honorária da IVU.

Fluente em português, inglês e espanhol, traduziu mais de 70 livros. Entre eles estão Libertação Animal, de Peter Singer, uma das obras mais influentes do debate contemporâneo sobre a questão animal, e volumes dos Escritos Compilados de H. P. Blavatsky, referência da literatura teosófica. Já esteve em mais de 60 países. Recebeu, entre outras homenagens:

2010 Sócia-benemérita do IAA Título concedido pelo Instituto Abolicionista Animal pelos serviços prestados na luta pelos direitos animais.
2012 Medalha São Francisco de Assis Concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelos serviços prestados à causa dos animais.
2022 Certificado de Apreço — Países Baixos Concedido em Haia, em março de 2022, pela bancada do Partido pelos Animais (Partij voor de Dieren) no Senado do Parlamento dos Países Baixos, “pelos esforços especiais em traduzir compaixão em oportunidades da vida cotidiana”.
Nota de transparência: o autor desta entrevista conhece Marly Winckler desde aquele congresso de 2004 e colaborou por anos com os sites da SVB e da IVU. Por isso mesmo, as perguntas a seguir não fogem dos temas difíceis.
01

Raízes e convicção

1

Você cresceu no oeste catarinense, numa região em que criar e abater animais era parte da economia doméstica. Seu vegetarianismo começou, em 1983, como extensão de uma busca espiritual. Em que momento essa escolha íntima deixou de ser uma questão de consciência pessoal e virou um projeto político de transformação da sociedade?

Eu estava voltando de uma temporada de dois anos em Londres, num momento muito particular da história brasileira, em plena época da anistia. Lá convivi com ativistas políticos e com brasileiros que se preparavam para voltar ao país. Aquela experiência ampliou muito a minha visão de mundo e teve um impacto tão grande sobre mim que, ao retornar ao Brasil, abandonei o curso de Arquitetura e fui estudar Ciências Sociais.

Foi nesse mesmo período, depois que voltei ao Brasil, que entrei em contato com o ideário teosófico, que me apresentou o vegetarianismo. Portanto, as duas coisas aconteceram praticamente juntas: de um lado, uma consciência política cada vez mais ampla; de outro, uma reflexão espiritual e ética sobre a relação com os animais e com a vida.

Quando me tornei vegetariana, em 1983, isso já aconteceu dentro desse ambiente de transformação pessoal e política. Com o tempo, fui percebendo que não se tratava apenas de uma escolha individual sobre o que colocar no prato. A questão envolvia a maneira como organizamos a sociedade, nossa relação com os animais, com o meio ambiente, com a saúde e com o próprio sistema de produção. Foi assim que uma decisão inicialmente pessoal passou, de forma bastante natural, a fazer parte de um projeto mais amplo de transformação social.

2

Em 1994, em Haia, você viu delegados da IVU discutirem se queijos e ovos deveriam ser servidos num congresso vegetariano. Um ano depois, estava vegana. Três décadas se passaram e a tensão entre vegetarianos e veganos continua acesa. Como presidente da IVU, você defendeu manter os dois sob o mesmo guarda-chuva. Isso foi pragmatismo estratégico ou convicção filosófica? E qual é o custo de cada escolha?

Foram as duas coisas, mas sobretudo uma convicção: para mim, o veganismo (ou vegetarianismo estrito) é o horizonte ético mais coerente, porque, quando compreendemos o que está por trás da produção de leite e ovos, fica difícil sustentar que a questão se encerra simplesmente em não comer carne. Foi justamente esse processo de compreensão que me levou, depois daquele congresso de Haia, a me tornar vegana.

Mas isso nunca me fez pensar que deveríamos excluir os vegetarianos do movimento. Ao contrário. A própria história mostra que muitas pessoas chegam ao veganismo através do vegetarianismo — foi o meu caso. Se transformamos a questão numa espécie de teste de pureza, corremos o risco de afastar justamente pessoas que estão fazendo um percurso de mudança e poderiam avançar ainda mais.

Na IVU, sempre defendi um grande guarda-chuva capaz de reunir vegetarianos, veganos e mesmo simpatizantes, sem que isso significasse diluir a mensagem. Tanto a IVU quanto a SVB têm o vegetarianismo estrito como referência alimentar — isto é, uma alimentação sem produtos de origem animal. Ao mesmo tempo, sempre entendemos que uma coisa é deixar claro o horizonte que defendemos; outra é excluir quem ainda está percorrendo esse caminho.

Há um custo nas duas escolhas. Quando se amplia demais o conceito, existe o risco de diluir a mensagem e perder clareza ética. Mas, quando se fecha demais o movimento, o custo pode ser a fragmentação, o sectarismo e a perda da capacidade de dialogar com milhões de pessoas que ainda não chegaram ao veganismo.

Sempre achei mais transformador construir pontes. Ter clareza sobre onde queremos chegar sem exigir que todos estejam no mesmo ponto do caminho. Para mim, essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis — e mais importantes — de um movimento que pretende realmente transformar a sociedade.

3

Em 1997, você criou o primeiro site sobre vegetarianismo em português e listas de e-mail que conectaram ativistas do Brasil e da América Latina. Aquela comunidade crescia pela conversa. A de hoje cresce por algoritmos que premiam indignação e polarização. O que o ativismo digital perdeu e o que ganhou nessa travessia?

Em 1995, quando fui ao Festival Vegano na Califórnia, tive também meu primeiro contato com a internet. Voltei para o Brasil fascinada com as possibilidades daquele novo meio e comecei imediatamente a procurar uma forma de utilizá-lo para divulgar o vegetarianismo. Tudo era muito difícil, eu não conhecia então nenhum vegano e tive que fazer um curso de HTML para criar eu mesma um site, o Sítio Vegetariano (vegetarianismo.com.br), lembrando que sítio é a tradução de site. Criei então listas de discussão por e-mail, a veg-brasil e a veg-latina, que começaram a reunir pessoas de diferentes partes do Brasil e até do exterior e também da América Latina.

Isso tudo foi muito importante porque, naquela época, os vegetarianos ainda estavam muito dispersos e frequentemente se sentiam isolados. As listas de discussão começaram a aproximar essas pessoas e a criar uma verdadeira comunidade. Ali se trocavam informações, experiências, receitas e indicações, discutiam-se ideias, faziam-se perguntas e havia muito apoio mútuo. Era um ambiente acolhedor e de aprendizado coletivo. Muitas pessoas que mais tarde teriam atuação importante no movimento se conheceram justamente nesses espaços e começaram ali a se articular.

Comecei também a montar um “guia de endereços”. Eu mesma visitava restaurantes, lojas de produtos naturais e outros lugares e ia reunindo todas essas informações num diretório. Mais tarde, esse material chegou a servir de ponto de partida para um guia publicado pela Revista dos Vegetarianos. Era tudo muito artesanal, mas havia uma preocupação grande em compartilhar informação útil e construir uma rede.

A internet de hoje ganhou uma capacidade de alcance que naquela época seria inimaginável. Uma informação pode chegar a milhões de pessoas em poucas horas; é muito mais fácil divulgar campanhas, mobilizar pessoas, encontrar conteúdo, mostrar alternativas veganas e conectar grupos em diferentes países. Isso é uma conquista extraordinária para qualquer movimento social.

Mas houve também outra mudança fundamental: a internet quebrou, em grande medida, o monopólio da informação. Temas que dificilmente encontravam espaço na mídia tradicional — ou que simplesmente eram ignorados — passaram a circular livremente, diretamente entre as pessoas. Para um movimento ainda pequeno e pouco conhecido como era o vegetarianismo naquela época, isso representou um fôlego imenso.

Começaram também a circular vídeos mostrando de forma muito concreta como os animais eram criados e abatidos e quais eram as consequências desse sistema. Isso teve um impacto enorme, porque muitas pessoas passaram a ver aquilo que até então permanecia escondido. Já não se tratava apenas de ler argumentos; era possível confrontar diretamente a realidade da produção animal.

Um marco importante foi o documentário A Carne é Fraca, lançado durante o Congresso Vegetariano Mundial de 2004, em Florianópolis. Foi um dos primeiros grandes documentários brasileiros a tratar de maneira abrangente da produção e do consumo de carne e de seus impactos sobre os animais, a saúde e o meio ambiente. Sua circulação ajudou muito a ampliar o alcance do movimento e a levar essa discussão a públicos que talvez nunca tivessem entrado em contato com ela de outra forma.

A internet nos deu, portanto, não apenas velocidade e alcance, mas também autonomia para produzir e distribuir nossa própria informação. Foi decisiva para transformar um movimento fragmentado em uma rede muito mais articulada e visível.

Mas uma mudança importante aconteceu depois, com a passagem daquela internet mais baseada em sites, fóruns e listas de discussão para o ambiente das redes sociais. Foi aí que, na minha opinião, começamos a perder parte da qualidade da conversa. Nas primeiras comunidades digitais, havia mais tempo para ouvir, argumentar, responder e conhecer as pessoas. As discussões podiam ser longas, havia uma memória do que tinha sido dito e criava-se uma sensação maior de comunidade.

Com as redes sociais, especialmente à medida que passaram a ser organizadas por algoritmos, a lógica mudou. Conteúdos que provocam reação imediata — indignação, conflito, simplificação, polarização — tendem a ganhar mais visibilidade, e diferenças que antes poderiam gerar uma boa discussão acabam muitas vezes se transformando em enfrentamentos.

Então eu diria que ganhamos enormemente em alcance, velocidade e liberdade de circulação da informação, mas perdemos alguma coisa em profundidade, convivência e construção de comunidade. O desafio agora é aproveitar todo o poder dessas novas ferramentas sem abrir mão daquilo que havia de melhor no início da internet: a capacidade de aproximar pessoas, criar vínculos, trocar experiências e aprender umas com as outras.

02

A SVB e o Congresso que mudou o jogo

4

A SVB nasceu em 2003 como instrumento para viabilizar o 36º Congresso Vegetariano Mundial. É raro uma instituição criada com fim tão específico sobreviver por mais de duas décadas. Quando você percebeu que a SVB seria maior que o evento que a originou?

A SVB foi criada em 2003 para que pudéssemos sediar no Brasil o Congresso Vegetariano Mundial da IVU, mas a ideia de constituir uma organização vegetariana já vinha de muito antes. Quando eu ainda participava de um grupo em Porto Alegre, por exemplo, já discutíamos a criação de uma associação vegetariana gaúcha.

Depois, com a internet e principalmente com a criação da lista de discussão Veg-Brasil, esse processo ganhou outra dimensão. Pessoas de diferentes regiões começaram a se conhecer, trocar experiências, discutir ideias e organizar iniciativas. Aos poucos, foi se formando uma verdadeira rede nacional.

Por isso, quando finalmente fundei a Sociedade Vegetariana Brasileira, ela não nasceu do zero nem apenas para realizar um congresso. O Congresso foi o impulso decisivo para formalizar algo que já vinha sendo construído havia anos. Naquele momento, eu já tinha uma rede constituída praticamente em todo o país, e a SVB surgiu como uma maneira de dar estrutura, continuidade e identidade nacional a esse movimento.

Então, de certa forma, eu já sabia desde o início que a SVB teria uma vida para além do Congresso. O evento foi uma grande oportunidade de reunir e fortalecer essa rede, mas a organização respondia a uma necessidade que já existia muito antes dele.

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Trazer pela primeira vez à América Latina um congresso de uma entidade centenária, e organizá-lo a partir de Florianópolis, parece hoje uma ousadia. O que quase deu errado nos bastidores? E, olhando para as pessoas que saíram do Costão do Santinho e fundaram grupos, empresas e projetos (este Guia Vegano entre eles), é possível medir o efeito multiplicador daquela semana?

Esse Congresso foi, de certa forma, a culminação de todo um processo. Havia, de um lado, uma demanda crescente pelo vegetarianismo e, de outro, uma rede que vinha sendo construída havia anos no Brasil e na América Latina. Mas houve também muito esforço, colaboração e contribuição de muitas pessoas para tornar aquele encontro possível.

Recebemos participantes de 32 nacionalidades, entre eles figuras muito importantes do movimento internacional: presidentes e representantes de sociedades vegetarianas e veganas do Reino Unido, dos Estados Unidos, da Índia, de Singapura, da Espanha e de muitos outros países. Tivemos também representantes de mais de dez países da América Latina, algo que até hoje não é simples de conseguir num evento realizado no Brasil. Foi um momento muito forte de encontro, colaboração e união.

Naturalmente, como acontece em qualquer movimento, já existiam diferenças de visão, críticas e divergências. Elas apareceram também ali, mas não chegaram a comprometer o espírito geral do Congresso nem aquilo que conseguimos realizar coletivamente.

Para mim, pessoalmente, foi um trabalho imenso. Mas o resultado compensou. O Congresso acabou sendo reconhecido pela IVU como um de seus melhores eventos, tanto pelo local — o Costão do Santinho — quanto pela alimentação oferecida. E, num congresso vegetariano, a comida não é um detalhe: ela é parte fundamental da experiência. Toda a alimentação do evento foi vegana, assim como desde o início a mensagem da SVB apontava para o vegetarianismo estrito, o que deu ao encontro um caráter bastante pioneiro para aquela época. A própria IVU havia adotado o vegetarianismo estrito como referência a partir do Congresso de Haia, em 1994, justamente o meu primeiro Congresso Mundial.

“Surgiam problemas o tempo todo. Muitas vezes eu me pegava pensando: ‘E agora? Como vamos resolver isso?’. Mas então olhava ao redor e via todo mundo feliz, envolvido, aproveitando o encontro, e as coisas iam se resolvendo.”

Apesar das muitas dificuldades — trabalhávamos praticamente sem recursos e tudo era sustentado por trabalho voluntário —, talvez eu nunca tenha sentido em outro evento um ambiente tão elevado quanto naquele Congresso. Quase ninguém percebia o que, nos bastidores, não estava funcionando tão bem.

Acho que isso diz muito sobre o espírito daquele momento. Havia uma disposição enorme para colaborar, ajudar e fazer dar certo. Mesmo com todas as limitações materiais, existia uma energia de união que compensava muita coisa. Talvez por isso, olhando para trás, eu me lembre menos dos problemas concretos e mais dessa sensação de que todos estavam construindo alguma coisa juntos.

Outro efeito muito importante foi a grande difusão do veganismo no Brasil a partir daquele Congresso. O veganismo já existia, naturalmente, mas ainda era muito pouco conhecido. Durante aquela semana, muitas pessoas que eram ovolactovegetarianas havia anos entraram em contato de maneira mais profunda com seus fundamentos éticos e mudaram ali mesmo sua alimentação e sua maneira de compreender a questão animal. Houve realmente uma espécie de boom: muita gente saiu do Congresso vegana ou decidida a fazer essa transição. O fato de toda a alimentação ser vegana e de o tema estar presente nas palestras, nas conversas e nas experiências do encontro tornou o veganismo algo concreto e possível, não apenas uma ideia abstrata.

Foi também nesse Congresso que ocorreu o lançamento de A Carne é Fraca, documentário que teria depois uma circulação muito grande e ajudaria a mostrar ao público brasileiro as condições de criação e abate dos animais e os impactos da produção de carne. Tudo isso contribuiu para ampliar enormemente a discussão.

E o efeito multiplicador é impossível de medir completamente. Muitas pessoas que estiveram no Costão saíram dali fortalecidas, conectadas e inspiradas a criar grupos, empresas, projetos e novas iniciativas — entre elas o próprio Guia Vegano, que nasceu na esteira do impulso gerado pelo evento. O Congresso não foi apenas uma semana de atividades: ele marcou um momento de aceleração e amadurecimento do movimento vegetariano e vegano no Brasil. Reuniu uma comunidade que estava se formando, deu a ela consciência de sua própria força e ajudou a lançar muitas das sementes que germinariam nos anos seguintes. Talvez esse seja o seu legado mais importante.

6

Durante suas gestões, praticamente todos os projetos da SVB foram implantados com trabalho voluntário, sem salários. Como se sustenta uma organização nacional assim, e qual foi o custo pessoal para você? A profissionalização que o terceiro setor vegano viveu depois foi uma evolução natural ou algo se perdeu no caminho?

Durante muitos anos, a SVB funcionou essencialmente graças ao trabalho voluntário. Isso exigia muita dedicação, muita confiança entre as pessoas e uma disposição enorme para fazer as coisas acontecerem mesmo quando não havia recursos. Cada projeto dependia de alguém assumir uma tarefa, muitas vezes além de sua vida profissional e pessoal, simplesmente porque acreditava na causa.

No meu caso, o custo pessoal foi grande. Durante muitos anos investi uma quantidade enorme de tempo e energia na SVB sem remuneração. Aliás, nunca fui remunerada por esse trabalho, nem na SVB nem na IVU. Era trabalho de organização, articulação, comunicação, eventos, campanhas, relações institucionais, viagens, resolução de problemas — muitas vezes tudo ao mesmo tempo. E, naturalmente, isso significava abrir mão de outras coisas. Mas, naquela fase, era a única maneira possível de construir uma organização daquela dimensão.

Ao mesmo tempo, havia uma força especial naquele modelo. As pessoas estavam ali porque realmente queriam estar. Existia um espírito de colaboração, de pertencimento e de construção coletiva muito intenso. Fazíamos coisas que, olhando hoje, parecem até improváveis para uma estrutura praticamente sem funcionários.

A profissionalização era inevitável e, em grande medida, necessária. Uma organização que cresce, administra projetos maiores, dialoga com governos e empresas e pretende ter continuidade não pode depender indefinidamente apenas da disponibilidade de voluntários. É preciso ter pessoas remuneradas, procedimentos, planejamento, metas, prestação de contas e capacidade técnica. Isso permite fazer mais e dá estabilidade institucional.

Mas acho que existe também um risco nesse processo. Quando uma causa se profissionaliza demais, ela pode começar a reproduzir a lógica de qualquer organização: carreira, cargos, metas, orçamento, disputa por recursos. E então é preciso cuidar para que a instituição não passe a existir para sustentar a própria estrutura, em vez de a estrutura existir para servir à causa.

Portanto, vejo a profissionalização como uma evolução necessária, mas não como um valor em si mesma. O ideal é conseguir unir a competência profissional ao espírito de compromisso, colaboração e idealismo que existia no trabalho voluntário. Se conseguirmos preservar isso, ganhamos capacidade sem perder a alma do movimento.

03

Da militância à política pública

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Em 2009, São Paulo tornou-se a segunda cidade do mundo a apoiar oficialmente uma campanha de redução do consumo de carne, depois de Gante, e a primeira a adotar refeições vegetarianas estritas. Leve o leitor para dentro da sala: o que você colocou na mesa para convencer o poder público e de onde veio a maior resistência?

Acho que foi uma conjuntura muito feliz: havia um trabalho técnico consistente sendo feito pela SVB e, ao mesmo tempo, pessoas-chave ocupando lugares-chave no poder público.

Em São Paulo, o grupo local da SVB, juntamente com outros grupos, já havia realizado um Dia Sem Carne. Foi uma ação bastante simples: prepararam um grande bolo vegano, que era distribuído aos transeuntes juntamente com material informativo sobre os benefícios de uma alimentação sem produtos de origem animal. O próprio Eduardo Jorge, então secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, compareceu ao evento, o que já demonstrava sua receptividade à proposta.

Pouco depois, quando soube que Gante, na Bélgica, havia adotado oficialmente a sua Quinta sem Carne, liguei imediatamente para o Eduardo Jorge e propus: “Vamos fazer aqui a Segunda Sem Carne”. Ele topou na hora. Em poucos meses, lançamos oficialmente a campanha no Parque Ibirapuera, com grande repercussão na mídia.

A principal resistência veio da indústria da carne. Houve reclamações, e o prefeito da época pediu que Eduardo Jorge respondesse. Ele, por sua vez, me pediu que preparasse uma resposta sucinta. Conversei com o Eric e ele lembrou que o próprio Guia Alimentar do Ministério da Saúde dizia que o brasileiro consumia muita gordura, muito açúcar e muito sal e precisava comer mais cereais, frutas e verduras. Então nossa resposta foi muito simples: estávamos ajudando o governo a fazer a sua própria lição de casa.

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Em 2011, a Segunda Sem Carne deu seu passo mais ambicioso: chegou à rede municipal de ensino de São Paulo, que serve cerca de 2 milhões de refeições por dia. Políticas públicas mudam a cada eleição. O que você aprendeu sobre como proteger conquistas institucionais das trocas de governo e da pressão de setores econômicos poderosos?

A entrada da Segunda Sem Carne nas escolas não aconteceu de repente. Antes dela, com o apoio do vereador Roberto Tripoli, estávamos tentando desenvolver um projeto-piloto de alimentação vegetariana em algumas escolas de São Paulo. Nesse contexto realizamos uma audiência pública na Câmara Municipal para discutir alimentação vegetariana e convidamos nutricionistas da Secretaria de Educação, além de outros profissionais. O Dr. Eric Slywitch participou da audiência e apresentou a fundamentação científica da alimentação vegetariana, mostrando sua adequação e seus benefícios.

O projeto-piloto com o vereador Tripoli acabou não prosperando, mas teve uma consequência muito importante: serviu para esclarecer e preparar as nutricionistas da rede municipal. Quando, mais tarde, surgiu a possibilidade de implantar a Segunda Sem Carne em toda a rede, elas já haviam tido contato com a fundamentação científica da alimentação vegetariana. De certa maneira, já estavam “educadas” para a proposta.

A Segunda Sem Carne chegou às escolas por outro caminho. Depois do lançamento da campanha, pedi novamente ao Dr. Eduardo Jorge que intermediasse uma conversa com o então secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider. Eu queria levar a Segunda Sem Carne para dentro da rede municipal. Expliquei a ele os benefícios para a saúde e para o meio ambiente e disse também que, se quiséssemos realmente alcançar esses benefícios, não bastava simplesmente retirar a carne: a refeição deveria ser vegetariana estrita, sem produtos de origem animal.

Alexandre Schneider entendeu a proposta e a apoiou integralmente. Em 2011, implantamos uma refeição vegetariana estrita semanal nas cerca de três mil unidades da rede municipal, alcançando mais de dois milhões de refeições por dia. E algo muito significativo aconteceu: não houve resistência por parte das nutricionistas. Aquele trabalho anterior, feito durante a discussão do projeto-piloto, havia preparado o terreno.

O vereador Roberto Tripoli também passou a apoiar a Segunda Sem Carne, e realizamos na Câmara Municipal três seminários para discutir a alimentação escolar, ampliando ainda mais o debate e sua sustentação institucional.

A partir da implantação na rede municipal, a Segunda Sem Carne de São Paulo tornou-se a maior campanha de redução do consumo de produtos de origem animal do mundo. E há uma curiosidade de que gosto muito: tanto Eduardo Jorge quanto Alexandre Schneider acabaram se tornando vegetarianos.

“Uma política pública fica muito mais protegida quando deixa de depender apenas de quem ocupa temporariamente um cargo e passa a ser compreendida e incorporada pela própria estrutura técnica da instituição.”

Mas talvez a melhor resposta à pergunta sobre continuidade tenha vindo da própria chefe da equipe de nutricionistas da Secretaria Municipal de Educação. Ela me disse, na época, que a campanha tinha vindo para ficar e não seria descontinuada mesmo com uma mudança de governo. E foi exatamente isso que aconteceu.

Essa foi uma das principais lições que tirei daquele processo. Não houve uma fórmula mágica. Houve preparação, informação científica, formação dos profissionais, articulação política e, sobretudo, pessoas dispostas a ouvir.

9

O Selo Vegano, criado em 2013, ajudou a organizar um mercado que hoje movimenta cifras expressivas. Um debate recorrente, porém, é se a certificação deve alcançar grandes empresas que continuam explorando animais em outras linhas de produção. Onde você traça a fronteira entre ampliar o acesso ao consumidor e legitimar a indústria que o movimento combate?

Para mim, a distinção fundamental sempre foi esta: o Selo Vegano certifica um produto, não a empresa inteira. Ele atesta que aquele produto atende aos critérios estabelecidos; não significa que estamos dizendo que a empresa se tornou vegana ou que endossamos todas as suas práticas.

Se restringíssemos a certificação apenas a empresas que também fossem integralmente veganas, alcançaríamos um universo muito pequeno. Essas empresas são importantes e devem ser valorizadas, naturalmente, mas grandes companhias têm capacidade de produção, distribuição e logística para colocar produtos nas prateleiras de milhares de supermercados e outros pontos de venda. Então é preciso perguntar: o que produz mais impacto concreto? Certificar meia dúzia de produtos ou possibilitar que milhares ou milhões de unidades de produtos sem ingredientes de origem animal cheguem ao consumidor?

Isso pode representar uma redução muito maior no uso de ingredientes de origem animal e, portanto, poupar animais e reduzir outros impactos associados à produção. Além disso, a própria certificação cria pontes com a indústria. Ao conhecer nossos critérios e compreender melhor nossos propósitos, as empresas podem se abrir para reformular produtos, substituir ingredientes de origem animal e desenvolver novas opções aptas ao consumo de veganos. Esses projetos têm no fundo uma intenção educativa.

Vejo uma lógica semelhante na Segunda Sem Carne. Há quem critique dizendo que um único dia por semana é pouco. É claro que, do ponto de vista do objetivo final, queremos muito mais do que isso. Mas, entre todas as campanhas que realizamos, a Segunda Sem Carne foi justamente a que alcançou maior impacto concreto, em escala, redução de consumo, conscientização e mudança de hábitos. E se eu pudesse transformar todas as escolas em seguidoras da SSC ou até mesmo fazer com que adotassem alimentação vegetariana todos os dias, eu faria, não tenha dúvidas.

“Vamos esperar que o mundo inteiro se torne vegano para começar a transformá-lo? Não faz sentido cruzar os braços à espera de uma situação ideal. É preciso atuar no mundo como ele existe, criando condições para que ele mude.”

Isso não significa abrir mão de princípios. Significa distinguir o objetivo final dos caminhos que podem nos aproximar dele. Clareza ética e pragmatismo não precisam ser opostos; podem trabalhar juntos quando o resultado concreto é reduzir a exploração animal e ampliar as alternativas veganas.

10

Os dois eventos que você organizou na OAB tiveram consequências que poucos previam. O de 2013, na seccional do Distrito Federal, desencadeou comissões de direitos animais em seccionais de todo o país. O de 2015, na OAB Nacional, marcou a criação da primeira comissão especial do Conselho Federal da Ordem. Por que apostar no Direito como frente de batalha? E, concretamente, o que mudou na vida dos animais desde então?

Eu sempre entendi que a transformação da nossa relação com os animais não poderia ficar restrita à mudança de hábitos individuais. Era preciso também atuar nas instituições que produzem normas, interpretam direitos e influenciam políticas públicas. E o Direito é uma frente fundamental justamente porque pode transformar uma reivindicação ética em reconhecimento institucional e, muitas vezes, em proteção concreta.

Esse trabalho, na verdade, começou antes dos eventos da OAB. Em 2006, durante um congresso da SVB, foi criado o Instituto Abolicionista Animal (IAA). A partir daí, já vínhamos desenvolvendo de forma mais estruturada essa dimensão jurídica da defesa animal, reunindo pessoas do Direito e de outras áreas interessadas em discutir a condição dos animais e construir fundamentos para a defesa de seus direitos. Muitos dos palestrantes que depois convidamos para os eventos da OAB integravam o próprio IAA.

Foi fundamental também a participação e a liderança do Dr. Ulisses Borges de Resende, que atuava em Brasília e conhecia profundamente essas instâncias e os caminhos institucionais necessários para fazer a pauta avançar. Além dessa experiência, havia um aspecto muito especial em sua trajetória: ele vinha de uma família vegetariana havia seis gerações. Em 2013, quando realizamos o primeiro evento na OAB do Distrito Federal, Ulisses presidia a Comissão de Meio Ambiente da OAB-DF, e sua atuação foi decisiva para conseguirmos abrir aquele espaço.

O resultado foi muito maior do que imaginávamos. A discussão contribuiu para estimular a criação de comissões voltadas aos direitos animais em diferentes seccionais da OAB pelo país. Dois anos depois, em 2015, realizamos um novo evento no próprio Conselho Federal da Ordem, e esse processo culminou na criação da primeira comissão dedicada aos direitos animais em âmbito nacional, presidida pelo próprio Dr. Ulisses.

Portanto, quando a questão animal entrou na OAB, não estávamos começando do zero. Havia um trabalho anterior de reflexão, articulação e formação de pessoas, iniciado anos antes, inclusive com a criação do IAA. O que conseguimos fazer foi levar essa discussão para dentro de uma instituição tradicional, de grande capilaridade e influência no país.

É difícil dizer que determinada lei ou decisão judicial tenha resultado diretamente daqueles eventos, porque transformações dessa natureza são construídas coletivamente e ao longo do tempo. Mas houve uma mudança muito importante: a questão animal passou a conquistar um espaço institucional dentro da advocacia brasileira. Advogados começaram a se organizar em comissões, acompanhar projetos de lei, promover debates, atuar judicialmente e levar a perspectiva dos direitos animais para dentro das instituições.

Para mim, esse é o ponto central. Mudar consciências é indispensável, mas precisamos também mudar estruturas. E essa trajetória, que passou pela SVB, pelo IAA, pela OAB-DF e depois pelo Conselho Federal da OAB, mostra justamente como uma ideia pode amadurecer, encontrar pessoas preparadas e chegar às instituições capazes de produzir mudanças mais duradouras.

04

Uma brasileira no comando global

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Você foi a primeira brasileira e a terceira mulher a presidir a IVU, uma organização historicamente centrada na Europa, e visitou mais de 60 países. Como sua voz, vinda do Sul Global, foi recebida nesses espaços? Em que lugar do mundo você viu, com mais nitidez, o futuro do movimento?

O fato de eu representar a América Latina na IVU desde 2000, de ter organizado em Florianópolis um dos maiores e mais bem-sucedidos Congressos Mundiais da organização em seus mais de 100 anos de existência e de participar ativamente dos eventos internacionais certamente pesou na minha escolha para a presidência. Eu já vinha construindo uma trajetória dentro da própria IVU e articulando o movimento em uma região que até então tinha pouca ou nenhuma presença na organização.

Além disso, já existia dentro da IVU uma vontade explícita de ampliar sua atuação para além da Europa, onde ela havia se concentrado quase exclusivamente durante mais de cinquenta anos. Minha eleição também fazia parte desse processo de internacionalização: a ideia de transformar a IVU em uma organização realmente global, não apenas no nome, mas em sua presença, em sua liderança e em sua capacidade de integrar realidades culturais muito diferentes.

Ao longo desses anos e das viagens por mais de sessenta países, fui percebendo que talvez seja na Ásia que o movimento encontre um dos terrenos mais férteis para sua expansão. Ali existe uma particularidade muito importante: em muitos países, o vegetarianismo não chega simplesmente como uma ideia nova ou importada. Há tradições milenares de alimentação sem carne, de não violência e de respeito à vida que continuam presentes no pano de fundo cultural dessas sociedades.

Por isso, o que vemos hoje em vários lugares da Ásia pode ser entendido também como uma espécie de resgate. Não se trata apenas de introduzir um novo movimento, mas de reencontrar algo que já fazia parte do próprio tecido cultural e espiritual dessas populações. Quando essa herança se encontra com as preocupações contemporâneas com saúde, meio ambiente, sustentabilidade e direitos animais, surge uma combinação muito poderosa.

Há ainda um fator de escala que não pode ser ignorado: a Ásia reúne mais da metade da população mundial, e países como Índia e China têm um peso extraordinário nesse processo. Qualquer mudança significativa nos padrões alimentares dessas sociedades tem uma repercussão global incomparável. Na Índia, existe uma tradição vegetariana profundamente enraizada; na China, vemos também um interesse crescente por novas formas de alimentação e uma enorme capacidade de produzir mudanças em escala.

Isso não significa, evidentemente, que o movimento não seja vivo e crescente em outras regiões. Ao contrário. Nas últimas décadas, vimos sociedades vegetarianas que durante muito tempo funcionaram quase como clubes de convivência, voltados para encontros, jantares e troca de informações, transformarem-se em organizações profissionais, com funcionários, planejamento, metas, campanhas e capacidade de interlocução com governos, empresas e universidades.

Então eu diria que o futuro do movimento não está em um único lugar. Ele está se profissionalizando e se expandindo mundialmente. Mas a Ásia reúne três elementos particularmente poderosos: uma herança cultural favorável, uma população imensa e sociedades como Índia e China capazes de produzir transformações de alcance global. É por isso que vejo ali, com especial nitidez, uma das grandes frentes do futuro do vegetarianismo e do veganismo.

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Em 2009, na COP15, em Copenhague, você falou sobre a destruição da Amazônia pela pecuária, quando o tema era quase tabu nas negociações climáticas. Dezesseis anos depois, o Brasil sediou a COP30 em Belém. O sistema alimentar finalmente entrou na mesa principal ou continua servido no cardápio lateral dessas conferências?

Eu diria que avançamos muito, mas o sistema alimentar ainda não chegou plenamente à mesa principal. Em 2009, quando falei na COP15, em Copenhague, sobre a relação entre pecuária e destruição da Amazônia, a própria agricultura ainda lutava para entrar de maneira consistente nas negociações climáticas. Naquele momento, falar especificamente do impacto da produção animal era ainda mais difícil. A documentação daquele período mostra que a agricultura começava a ganhar espaço, mas nem mesmo o texto proposto para um programa de trabalho específico sobre o setor conseguiu ser aprovado em Copenhague.

Dezesseis anos depois, na COP30 de Belém, a situação já era bastante diferente. Agricultura e sistemas alimentares apareceram de forma muito mais explícita: houve discussões sobre financiamento para sistemas alimentares sustentáveis e agricultura, e a Agenda de Ação incluiu iniciativas voltadas inclusive à redução de metano na pecuária e no cultivo de arroz. Isso mostra que o tema deixou de ser praticamente invisível.

Mas, quando olhamos para o núcleo das decisões políticas da COP30, vemos que os grandes eixos continuaram sendo financiamento, adaptação, transição justa, implementação do Acordo de Paris, tecnologia, comércio e outros temas estruturantes. Os sistemas alimentares aparecem, mas ainda não com um peso proporcional à sua contribuição para a crise climática.

E existe uma dificuldade adicional: é relativamente mais fácil falar em “agricultura sustentável”, “eficiência”, “tecnologia” ou “redução de metano” do que enfrentar diretamente a questão da pecuária em escala industrial e da necessidade de mudança dos padrões alimentares. Esse continua sendo um ponto politicamente sensível, porque envolve interesses econômicos enormes e hábitos profundamente arraigados.

“O sistema alimentar já saiu do corredor e entrou na sala, mas ainda não se sentou à cabeceira da mesa.”

E, para mim, enquanto continuarmos tratando a alimentação como uma questão secundária nas políticas climáticas, estaremos deixando de enfrentar uma das grandes causas do problema e, ao mesmo tempo, uma das áreas em que mudanças relativamente rápidas poderiam produzir benefícios simultâneos para o clima, a saúde, o meio ambiente e os animais.

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Sob sua presidência, a IVU publicou um guia de nutrição vegana assinado por um médico brasileiro, Eric Slywitch, e voltado a profissionais de saúde do mundo inteiro. Numa era de desinformação nutricional, que muitas vezes vem de dentro do próprio movimento vegano, qual é o peso da credibilidade científica para a sobrevivência da causa?

A IVU passou mais de um século organizando, em parceria com suas organizações filiadas ao redor do mundo, congressos e outros eventos vegetarianos. E, durante praticamente toda essa história, existiu fundamentalmente graças ao trabalho voluntário de seus membros. Mas eu sabia que, para enfrentar os desafios atuais e ampliar seu impacto, isso precisava mudar. Comecei então, com bastante dificuldade, a desenvolver projetos que pudessem dar à IVU maior autonomia, permitir sua profissionalização e, ao mesmo tempo, cumprir sua missão de difundir o vegetarianismo.

O Guia de Nutrição Vegana para Adultos faz parte dessa visão. Ele é também, de certa maneira, uma continuação do trabalho que Eric Slywitch e eu já vínhamos desenvolvendo havia muitos anos numa área que considero absolutamente fundamental: a nutrição. O Guia procura reunir, de maneira ampla, rigorosa e acessível, praticamente todas as questões relevantes para uma alimentação vegetariana e vegana nutricionalmente adequada.

Uma das causas da desvalorização do vegetarianismo sempre foi justamente o desconhecimento de seus benefícios, inclusive do ponto de vista da saúde. Durante muito tempo, predominou a ideia de que uma dieta sem carne seria necessariamente deficiente ou arriscada. Por isso, desde o início, entendi que não bastava defender o vegetarianismo por razões éticas ou ambientais; era indispensável mostrar, com base científica, que ele também pode ser nutricionalmente adequado e trazer importantes benefícios à saúde.

E hoje isso se tornou ainda mais importante, porque a desinformação não vem apenas de fora do movimento. Às vezes ela nasce dentro dele, quando opiniões pessoais, modismos ou afirmações sem fundamento científico passam a ser apresentadas como verdades. Isso pode causar um dano enorme, porque basta uma informação equivocada, especialmente em nutrição, para comprometer a credibilidade de todo o movimento.

Por isso, para mim, credibilidade científica não é um detalhe: é uma condição para a sobrevivência e o amadurecimento da causa. Se queremos dialogar com médicos, nutricionistas, universidades, governos e instituições de saúde, precisamos falar uma linguagem baseada em evidências.

O vegetarianismo não precisa de exageros para se sustentar. Seus argumentos éticos, ambientais e de saúde já são suficientemente fortes. Quanto mais rigorosos formos naquilo que afirmamos, maior será nossa capacidade de influenciar políticas públicas, formar profissionais e ajudar as pessoas a fazer uma transição segura e consciente. É esse o papel que vejo para o Guia: não apenas informar, mas também dar uma base científica sólida ao avanço do vegetarianismo e do veganismo em escala internacional.

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A tradutora e o legado

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Você traduziu mais de 70 livros, do utilitarismo de Peter Singer em Libertação Animal a milhares de páginas de Helena Blavatsky. Uma é ética racional e secular; a outra, tradição esotérica. Traduzir é um ato político? E como essas duas matrizes, tão distintas, convivem na sua forma de pensar os animais?

Traduzir pode ser, sim, um ato político, no sentido amplo da palavra. Quando você escolhe trazer uma obra para outra língua, você ajuda determinadas ideias a atravessarem fronteiras e a entrarem no debate de uma sociedade. No meu caso, isso aconteceu de maneira muito clara com Libertação Animal, de Peter Singer. Traduzir aquele livro para o português significava tornar acessível a um público muito maior uma reflexão ética que teve enorme influência sobre o movimento de defesa dos animais no mundo.

Mas eu não vejo a tradução apenas como militância. Antes de tudo, ela exige fidelidade ao autor, rigor, disciplina e respeito pelo texto. O tradutor não deve transformar a obra naquilo que gostaria que ela dissesse. Seu trabalho é permitir que o pensamento do outro chegue ao leitor com a maior integridade possível. Ainda assim, a escolha das obras que traduzimos e colocamos em circulação inevitavelmente tem consequências culturais e, muitas vezes, políticas.

À primeira vista, Peter Singer e Helena Blavatsky parecem pertencer a universos completamente distintos. Singer trabalha a partir de uma ética racional e secular, questionando a exclusão dos animais da consideração moral e examinando o sofrimento de maneira muito concreta. Blavatsky parte de uma visão espiritual e filosófica muito mais abrangente, na qual a vida é entendida como profundamente interligada e em que a compaixão e a responsabilidade em relação a todos os seres têm um lugar central. Não por acaso, Pitágoras, frequentemente lembrado como o “pai do vegetarianismo no Ocidente”, comunga de uma visão muito próxima daquela desenvolvida por Blavatsky no que diz respeito à unidade da vida e ao parentesco essencial entre todos os seres.

Da mesma forma, a Dra. Anna Kingsford, que pode ser vista como uma das grandes matrizes — e, em certo sentido, a “mãe” — do vegetarianismo moderno no Ocidente, também fazia parte dessa mesma tradição espiritual. Em seu pensamento, a defesa dos animais, o vegetarianismo e a visão de uma unidade profunda entre todas as formas de vida não eram questões separadas, mas expressões de uma mesma compreensão ética e espiritual do mundo.

Para mim, essas duas matrizes não são incompatíveis. Elas chegam por caminhos diferentes a uma percepção que considero fundamental: os animais não existem simplesmente para servir aos seres humanos. Singer nos obriga a enfrentar racionalmente a incoerência de considerar importante o sofrimento humano e ignorar o sofrimento animal. A tradição teosófica amplia essa percepção ao situar os seres vivos dentro de uma concepção de unidade e continuidade da vida.

Talvez por isso eu nunca tenha sentido necessidade de escolher entre uma ética racional e uma visão espiritual. A razão nos obriga a examinar argumentos, evidências e consequências; a dimensão espiritual pode ampliar o sentimento de responsabilidade, compaixão e pertencimento a algo maior do que nós mesmos.

No fundo, minha relação com os animais foi sendo construída nesse encontro. A ética me diz que não tenho justificativa para causar sofrimento desnecessário; a visão espiritual me lembra que a vida não termina nas fronteiras da nossa própria espécie. Para mim, são linguagens diferentes que podem convergir numa mesma exigência: ampliar o círculo da nossa consideração moral e aprender a viver com menos violência.

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Em 2025, você passou a presidência da IVU ao dinamarquês Rune-Christoffer Dragsdahl e declarou sentir-se grata e confiante no futuro da organização. Duas perguntas para fechar. O que ainda falta fazer? E se pudesse sentar ao lado da Marly de 2004, no Costão do Santinho, na véspera da abertura do congresso, o que diria a ela?

Ainda falta fazer muita coisa. Falta na IVU, falta nas organizações vegetarianas de todos os países e falta no movimento como um todo. Não podemos baixar a guarda, porque, apesar de todos os avanços que conquistamos, o mundo continua sendo um consumidor voraz de carne e de outros produtos de origem animal. Mais de 80 bilhões de animais terrestres são criados e abatidos todos os anos, muitos deles submetidos a condições absolutamente abomináveis. Portanto, quando olhamos para a dimensão do problema, percebemos que estamos muito longe de poder considerar o trabalho concluído.

A profissionalização da IVU é uma dessas tarefas. Ela precisa deixar de depender essencialmente do voluntariado, conquistar maior autonomia financeira, desenvolver projetos permanentes e ocupar o lugar que sua história e seu alcance internacional lhe permitem ocupar na liderança do movimento vegetariano e vegano mundial. E isso vale, em diferentes graus, para muitas das organizações que atuam nessa área.

Quanto à sucessão, sempre pensei nela como parte da construção de uma instituição saudável. Desde a SVB eu tinha isso muito presente, porque conhecia histórias de organizações que desapareceram com a morte ou o afastamento de seus líderes. Quando conheci Rune-Christoffer Dragsdahl, em Berlim, em 2019, tive desde o início a impressão de que ele poderia vir a ser meu sucessor. Convidei-o para representar a IVU na Europa e, ao longo dos anos, essa convicção foi se fortalecendo. Quando ele me pediu que antecipasse minha saída da presidência, achei que havia chegado o momento de entregar a condução da organização a uma nova geração.

“Eu diria uma coisa muito simples: todo esse esforço vai valer a pena.”

E se eu pudesse me sentar ao lado da Marly de 2004, no Costão do Santinho, na véspera daquele Congresso, eu diria isso. Haverá dificuldades, desgastes, decepções e muito mais trabalho do que você consegue imaginar agora. Mas também virão muitas recompensas — não necessariamente pessoais, mas na forma de pessoas que serão tocadas, projetos que nascerão, organizações que crescerão, animais que serão poupados e ideias que continuarão avançando.

Eu diria a ela para seguir em frente. Porque continuo acreditando nisso: quando trabalhamos por uma causa em que realmente acreditamos, nunca sabemos até onde os efeitos do nosso esforço poderão chegar.

Ilustração em aquarela: mãos sustentando um livro aberto de onde brota uma árvore em forma de planeta, cercada por uma vaca, um porco, uma galinha, um coelho, um pássaro e um peixe

Encerramento

Há biografias que se contam por cargos. A de Marly Winckler se conta melhor pelo que continua funcionando sem ela na sala: a campanha que chegou às escolas, o selo nas prateleiras dos supermercados, as comissões de direitos animais em advocacias de todo o país, os livros que formaram gerações de ativistas e as organizações, grandes e pequenas, que nasceram depois de uma semana de novembro de 2004 em Florianópolis.

Ao longo desta conversa, ficou claro que o crescimento do vegetarianismo e do veganismo no Brasil não foi obra do acaso nem apenas do mercado. Foi construído com método, paciência institucional e muitas horas de trabalho voluntário, numa época em que quase ninguém acreditava que o tema chegaria às políticas públicas.

O Guia Vegano agradece a Marly Winckler pela generosidade, pela franqueza e por mais de duas décadas de amizade e de causa compartilhada. Aos leitores que quiserem conhecer mais sobre sua trajetória e seu trabalho, recomendamos:

Obrigado, Marly. Pelas pessoas, pelos animais, pelo planeta.
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