Em direção a um Setor Pecuário Compatível com o Acordo de Paris: Mudanças Urgentes e Práticas Sustentáveis

Quanto a pecuária precisa mudar para que o mundo cumpra o Acordo de Paris? Um relatório publicado em março de 2024 pelo Programa de Direito e Política Animal da Faculdade de Direito de Harvard respondeu a essa pergunta com base na opinião de 210 cientistas do clima e especialistas em agricultura e alimentação de 48 países. A conclusão é clara: as emissões da pecuária precisam atingir o pico imediatamente e cair 61% até 2036, e o principal caminho para isso é reduzir a produção e o consumo de carne e laticínios.
Os números do levantamento:
- 210cientistas do clima e especialistas em agricultura e alimentação consultados
- 48 paísesrepresentados entre os especialistas
- 60%dos participantes são autores de relatórios do IPCC
- Antes de 2025é quando as emissões da pecuária devem atingir o pico no mundo
- −61% até 2036é a meta global de redução das emissões do setor
- ~80 vezesé o poder de aquecimento do metano em relação ao CO2 em 20 anos
A necessidade de uma redução drástica no consumo de carne
O relatório Options for a Paris-Compliant Livestock Sector, assinado por Helen Harwatt, Matthew N. Hayek, Paul Behrens e William J. Ripple, mostra um consenso claro entre os especialistas: para manter o aquecimento global bem abaixo de 2 °C, como prevê o Acordo de Paris, as emissões da pecuária precisam cair de forma rápida e significativa. A maioria dos participantes indicou que essas emissões devem atingir o pico antes de 2025, no mundo e nos países de alta e média renda, e cair rapidamente em seguida. A resposta mais comum foi uma queda de 50% ou mais nos cinco anos seguintes ao pico, até alcançar uma redução global de 61% até 2036.
O levantamento também reconhece que os países não têm a mesma responsabilidade. Os de baixa renda poderiam atingir o pico somente depois de 2030, enquanto os grandes produtores e consumidores de carne precisam fazer mais, e mais cedo. Entre as medidas avaliadas, a redução no consumo de produtos de origem animal e a diminuição do número de animais criados foram apontadas como as de maior impacto.
Metano: o gás que acelera o aquecimento
No centro da discussão sobre a pecuária está o metano, um gás muito mais potente que o CO2 no curto prazo. Ele é produzido pelos próprios animais, principalmente na fermentação que ocorre no estômago dos ruminantes, como bois, vacas e ovelhas, e na decomposição do esterco. Num período de 20 anos, o metano aquece o planeta cerca de 80 vezes mais que a mesma quantidade de CO2. Como ele permanece menos tempo na atmosfera, cortar suas emissões tem efeito rápido, o que torna a pecuária uma das alavancas mais eficientes para frear o aquecimento nas próximas décadas.
A controvérsia com a FAO
O relatório de Harvard saiu em meio a uma disputa pública com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Na COP28, em dezembro de 2023, a FAO divulgou o relatório Pathways towards lower emissions, que avaliou as opções para reduzir as emissões da pecuária. Em abril de 2024, dois coautores do levantamento de Harvard, Paul Behrens e Matthew Hayek, pediram formalmente que a FAO retirasse esse relatório. Segundo eles, o documento distorceu seriamente as conclusões de estudos anteriores dos quais eram coautores, usou fontes inadequadas e cometeu erros de método.
O ponto central da crítica é o potencial da mudança de dieta. A FAO estimou que dietas com menos carne e laticínios reduziriam as emissões em apenas 0,19 a 0,53 bilhão de toneladas de CO2 equivalente por ano. Com base no modelo de Clark e colegas, publicado na revista Science em 2020, Behrens e Hayek calculam que o potencial real é de cerca de 3,1 bilhões de toneladas por ano, ou 6,2 bilhões se a vegetação nativa for restaurada nas terras liberadas pela pecuária.
Em julho de 2024, mais de 100 organizações e especialistas assinaram uma carta à direção da FAO pedindo a retratação. A controvérsia vai além de números: mostra como relatórios de instituições influentes moldam políticas públicas no mundo inteiro, e por que é essencial que representem com fidelidade o que a ciência diz.
Fazendo a mudança: dietas e impacto global
O relatório defende uma mudança profunda na alimentação humana, substituindo alimentos de origem animal por alternativas baseadas em plantas, com as maiores mudanças concentradas nos consumidores de países de alta e média renda. Para os especialistas consultados, essa transformação não é apenas uma sugestão, mas uma condição para cumprir as metas do Acordo de Paris.
Os benefícios vão além do metano. Reduzir o consumo de carne diminui a demanda por pastagens e por terras para cultivar ração, um dos principais motores do desmatamento. Os especialistas também destacam a importância de aproveitar parte dessas terras para restaurar a vegetação nativa, que volta a retirar carbono da atmosfera. Entre as prioridades de política pública apontadas estão o apoio financeiro a produtores que precisem migrar da pecuária para outras atividades e a preferência, nas compras públicas e nas políticas agrícolas, por alimentos com menor impacto climático e benefícios iguais ou maiores para a saúde.
Conclusão: um chamado para ação imediata
As conclusões do levantamento são um chamado claro para ações imediatas em todos os níveis de governo e da sociedade. O setor pecuário está numa encruzilhada entre tradição e sustentabilidade, e o relatório não apenas mostra o tamanho das reduções necessárias, mas também insere a pecuária no centro dos compromissos climáticos globais, de onde muitas vezes foi deixada de fora. Dietas baseadas em plantas, redução das emissões de metano e restauração dos sumidouros de carbono aparecem como as alavancas mais importantes.
Como resumiu Helen Harwatt, grande parte da atenção política tem se concentrado na transição energética, mas uma transição alimentar também é necessária, especialmente para os produtos de origem animal, que estão entre os mais emissores. O caminho é exigente, mas traz benefícios profundos para o clima, para a saúde e, não menos importante, para os bilhões de animais criados todos os anos para consumo.
Fontes:
- Harwatt, H.; Hayek, M. N.; Behrens, P.; Ripple, W. J. (2024). Options for a Paris-Compliant Livestock Sector: Timeframes, targets and trajectories for livestock sector emissions from a survey of climate scientists. Brooks McCormick Jr. Animal Law & Policy Program, Harvard Law School. Cópia no acervo do Guia Vegano: Paris-compliant-livestock-report.pdf.
- Harvard Law School, Animal Law & Policy Program. Climate and agriculture scientists set the record straight, mar. 2024.
- TABLE Debates. The furore over FAO livestock emissions, jul. 2024.
- Changing Markets Foundation e outros. Joint letter: expressing serious concern over the FAO's recent Pathways report, 2024.
- Clark, M. A. et al. (2020). Global food system emissions could preclude achieving the 1.5° and 2°C climate change targets. Science, 370, 705–708.
Leia também:
- Criado por .
- Última atualização em .
- Acessos 1690













































































