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Uma terceira via para a Sustentabilidade: Além da Carne de Laboratório e das Alternativas à Base de Plantas

Laboratório de química onde gorduras alimentares são sintetizadas a partir de carbono

Na busca por um sistema alimentar mais sustentável, o movimento vegano e seus financiadores têm apostado principalmente em duas tecnologias: os substitutos de carne à base de plantas e as carnes cultivadas em laboratório. Um estudo publicado na revista Nature Sustainability, intitulado "Comida sem agricultura", aponta uma terceira via: produzir gorduras alimentares diretamente a partir do carbono, sem plantas, sem animais e sem terras agrícolas. A startup americana Savor já leva essa ideia do laboratório para a cozinha.

Três caminhos para substituir produtos de origem animal

Primeira viaÀ base de plantasProdutos feitos com soja, ervilha, trigo e óleos vegetais. Já estão nos mercados, mas dependem de lavouras e, no caso dos óleos, muitas vezes da palma.
Segunda viaCarne cultivadaCélulas animais multiplicadas em biorreatores. Ainda enfrenta desafios de custo, escala e do uso de insumos de origem animal.
Terceira viaSíntese a partir do carbonoGorduras produzidas por processos químicos a partir de CO2, metano e hidrogênio, sem plantas, sem animais e sem terras agrícolas.

O que diz o estudo "Comida sem agricultura"

O estudo foi liderado pelo cientista do clima Steven J. Davis, da Universidade da Califórnia em Irvine, com pesquisadores da Carnegie Institution for Science, da Universidade Tsinghua, da Universidade de Waterloo e da Orca Sciences. Os autores analisaram diferentes caminhos químicos e biológicos para produzir alimentos sem agricultura e se concentraram nas gorduras. O motivo: elas são as moléculas mais simples de sintetizar, as únicas já produzidas em grande escala no passado, e vêm de lavouras como soja e palma, que ocupam mais de 300 milhões de hectares e respondem por cerca de 20% das emissões ligadas à agricultura e à mudança no uso da terra.

A ideia não é nova. Durante a Segunda Guerra Mundial, químicos alemães produziram uma margarina a partir do carvão, consumida por civis e soldados. O que mudou foi a tecnologia e, principalmente, a urgência climática. Comparando gorduras agrícolas com gorduras sintéticas molecularmente idênticas, os pesquisadores chegaram aos seguintes números:

  • < 0,8 g CO2e/kcalpara gordura sintética feita com gás natural e a eletricidade média dos EUA
  • > 1,5 g CO2e/kcalpara o óleo de palma do Brasil e da Indonésia e a soja do Brasil
  • > 1 bilhão de kcal/hapor ano com síntese, contra 15 a 20 milhões nas lavouras de oleaginosas
  • 100 a 800 vezesmenos água do que as gorduras de origem agrícola

O estudo mostra ainda que a vantagem climática não depende de um sistema totalmente livre de combustíveis fósseis: mesmo usando eletricidade de carvão, a gordura sintética emitiria menos do que os óleos vegetais produzidos na África Subsaariana. Para que o processo seja realmente sustentável, porém, os autores dizem que ele precisará usar carbono capturado da atmosfera e energia renovável.

Nota do Guia Vegano: dois autores do estudo, Kathleen Alexander e Ian McKay, são cofundadores da Savor e têm ações da empresa. Isso está declarado no próprio artigo, que passou por revisão de três especialistas independentes. É um dado importante para ler o estudo com senso crítico, sem desqualificá-lo.

Como a gordura é feita a partir do carbono

O processo é químico, não biológico. Gases simples, como dióxido de carbono ou metano, e hidrogênio obtido da água são transformados em cadeias de carbono chamadas alcanos. Esses alcanos são convertidos em ácidos graxos e, por fim, em gorduras, com controle de temperatura e pressão. É uma evolução de técnicas conhecidas desde os anos 1920, como a síntese de Fischer-Tropsch.

Isso é muito diferente da hidrogenação, usada há décadas para endurecer óleos vegetais e fazer margarina. A hidrogenação modifica gorduras que já existem, adicionando átomos de hidrogênio. A síntese constrói as gorduras do zero, molécula por molécula, e permite escolher quais ácidos graxos produzir. O resultado são gorduras idênticas às encontradas na natureza, sem que nenhum animal ou planta tenha sido usado.

A Savor: da manteiga de protótipo ao mercado

Manteiga produzida a partir de carbono, sem animais e sem plantasA Savor foi fundada em 2022 na Califórnia por Kathleen Alexander, cientista de materiais, e Ian McKay, com investimento inicial liderado pela Breakthrough Energy Ventures, fundo ligado a Bill Gates. Quando este artigo foi publicado, em fevereiro de 2024, a empresa tinha apenas um protótipo de manteiga. Desde então, o projeto avançou bastante:

  • Março de 2025: a Savor lançou oficialmente sua manteiga, primeiro para restaurantes e confeitarias parceiros nos EUA, como os estrelados SingleThread e ONE65.
  • Financiamento: a empresa já captou cerca de US$ 33 milhões e busca uma nova rodada para ampliar a produção.
  • Escala: a planta-piloto foi projetada para 1.000 toneladas por ano, e a meta é construir uma fábrica comercial de 10.000 toneladas.
  • Portfólio: além da manteiga, a Savor desenvolve sebo, gordura de cacau e substitutos do óleo de palma.

A venda ainda é restrita a parceiros selecionados, e a empresa segue no processo de aprovações regulatórias para ampliar a comercialização. Especialistas ouvidos pela CNBC afirmam que o produto é, quimicamente, mais próximo da manteiga de vaca do que qualquer manteiga vegana hoje à venda.

Uma esperança para as florestas tropicais e a vida selvagem

Filhote de orangotango, espécie ameaçada pelo desmatamento para plantações de palmaUm dos aspectos mais promissores dessa tecnologia é o potencial de reduzir a demanda por óleo de palma, cuja expansão é uma das principais causas de desmatamento no Sudeste Asiático e ameaça espécies como os orangotangos de Bornéu e Sumatra. Segundo o estudo, a maior parte das emissões e do uso de terra ligados à palma e à soja se concentra em poucos países: a soja dos EUA, do Brasil e da Argentina e a palma da Indonésia e da Malásia.

Substituir apenas o óleo de palma por gordura sintética teria evitado, nos últimos anos, cerca de 450 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano e o uso de 20 milhões de hectares de terras tropicais ricas em biodiversidade. Essas áreas poderiam ser reflorestadas, recuperando habitats e sumidouros naturais de carbono.

Perfil nutricional: o que esperar

Como as gorduras sintéticas são molecularmente idênticas às naturais, o efeito delas no organismo tende a ser o mesmo da gordura que imitam. A manteiga da Savor reproduz a gordura do leite e, por isso, é rica em gorduras saturadas, assim como a manteiga comum. Ela resolve os problemas éticos e ambientais da produção de laticínios, mas não é, por si só, uma opção mais saudável.

A tecnologia, porém, permite em teoria escolher o perfil de ácidos graxos, o que abre espaço para gorduras com mais insaturadas e menos saturadas no futuro. Os autores do estudo também observam que as gorduras sintéticas podem ser produzidas com pureza maior que a dos óleos vegetais refinados que consumimos hoje. Até que essas versões existam, óleos vegetais ricos em gorduras insaturadas, como o azeite, continuam sendo a escolha mais indicada para a saúde.

Custos e desafios

O próprio estudo é franco sobre os obstáculos. Mesmo em grande escala, gorduras sintéticas de alta pureza podem custar de 0% a 20% mais que os óleos de soja e palma, que são muito baratos porque os danos ambientais da agricultura não entram no preço. A aceitação do público é outro desafio: a combinação de "química" e "comida" tem um histórico de desconfiança. Há ainda questões sobre o consumo de minerais e metais nas fábricas, a dependência de gás natural em muitos cenários e o impacto sobre cerca de 1 bilhão de pessoas que trabalham na agricultura, sobretudo pequenos produtores do Sul global, o que exigiria políticas de transição justa.

A Savor afirma que, na escala de 10.000 toneladas por ano, poderá produzir sua gordura a custos competitivos com a gordura do leite. Se isso se confirmar, o argumento econômico pode pesar tanto quanto o ambiental.

Conclusão: um novo concorrente surge

Ilustração de alimentos produzidos a partir de carbonoO estudo "Comida sem agricultura" e a chegada da manteiga da Savor ao mercado mostram que existe, de fato, uma terceira via além das carnes cultivadas e dos produtos à base de plantas. Ela não substitui as outras duas, mas pode complementá-las exatamente onde são mais fracas: nas gorduras, que dão sabor e textura aos alimentos e cuja produção agrícola destrói florestas tropicais.

Com emissões menores, uso de terra e água muito reduzido e o potencial de diminuir a demanda por óleo de palma, a síntese de gorduras a partir do carbono pode se tornar uma peça importante do futuro da alimentação. A concorrência entre essas tecnologias tende a acelerar a inovação e a aproximar o objetivo de um sistema alimentar que não dependa da exploração de animais.

Autor: Alex Fernandes

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