Uma terceira via para a Sustentabilidade: Além da Carne de Laboratório e das Alternativas à Base de Plantas

Na busca por um sistema alimentar mais sustentável, o movimento vegano e seus financiadores têm apostado principalmente em duas tecnologias: os substitutos de carne à base de plantas e as carnes cultivadas em laboratório. Um estudo publicado na revista Nature Sustainability, intitulado "Comida sem agricultura", aponta uma terceira via: produzir gorduras alimentares diretamente a partir do carbono, sem plantas, sem animais e sem terras agrícolas. A startup americana Savor já leva essa ideia do laboratório para a cozinha.
Três caminhos para substituir produtos de origem animal
O que diz o estudo "Comida sem agricultura"
O estudo foi liderado pelo cientista do clima Steven J. Davis, da Universidade da Califórnia em Irvine, com pesquisadores da Carnegie Institution for Science, da Universidade Tsinghua, da Universidade de Waterloo e da Orca Sciences. Os autores analisaram diferentes caminhos químicos e biológicos para produzir alimentos sem agricultura e se concentraram nas gorduras. O motivo: elas são as moléculas mais simples de sintetizar, as únicas já produzidas em grande escala no passado, e vêm de lavouras como soja e palma, que ocupam mais de 300 milhões de hectares e respondem por cerca de 20% das emissões ligadas à agricultura e à mudança no uso da terra.
A ideia não é nova. Durante a Segunda Guerra Mundial, químicos alemães produziram uma margarina a partir do carvão, consumida por civis e soldados. O que mudou foi a tecnologia e, principalmente, a urgência climática. Comparando gorduras agrícolas com gorduras sintéticas molecularmente idênticas, os pesquisadores chegaram aos seguintes números:
- < 0,8 g CO2e/kcalpara gordura sintética feita com gás natural e a eletricidade média dos EUA
- > 1,5 g CO2e/kcalpara o óleo de palma do Brasil e da Indonésia e a soja do Brasil
- > 1 bilhão de kcal/hapor ano com síntese, contra 15 a 20 milhões nas lavouras de oleaginosas
- 100 a 800 vezesmenos água do que as gorduras de origem agrícola
O estudo mostra ainda que a vantagem climática não depende de um sistema totalmente livre de combustíveis fósseis: mesmo usando eletricidade de carvão, a gordura sintética emitiria menos do que os óleos vegetais produzidos na África Subsaariana. Para que o processo seja realmente sustentável, porém, os autores dizem que ele precisará usar carbono capturado da atmosfera e energia renovável.
Nota do Guia Vegano: dois autores do estudo, Kathleen Alexander e Ian McKay, são cofundadores da Savor e têm ações da empresa. Isso está declarado no próprio artigo, que passou por revisão de três especialistas independentes. É um dado importante para ler o estudo com senso crítico, sem desqualificá-lo.
Como a gordura é feita a partir do carbono
O processo é químico, não biológico. Gases simples, como dióxido de carbono ou metano, e hidrogênio obtido da água são transformados em cadeias de carbono chamadas alcanos. Esses alcanos são convertidos em ácidos graxos e, por fim, em gorduras, com controle de temperatura e pressão. É uma evolução de técnicas conhecidas desde os anos 1920, como a síntese de Fischer-Tropsch.
Isso é muito diferente da hidrogenação, usada há décadas para endurecer óleos vegetais e fazer margarina. A hidrogenação modifica gorduras que já existem, adicionando átomos de hidrogênio. A síntese constrói as gorduras do zero, molécula por molécula, e permite escolher quais ácidos graxos produzir. O resultado são gorduras idênticas às encontradas na natureza, sem que nenhum animal ou planta tenha sido usado.
A Savor: da manteiga de protótipo ao mercado
A Savor foi fundada em 2022 na Califórnia por Kathleen Alexander, cientista de materiais, e Ian McKay, com investimento inicial liderado pela Breakthrough Energy Ventures, fundo ligado a Bill Gates. Quando este artigo foi publicado, em fevereiro de 2024, a empresa tinha apenas um protótipo de manteiga. Desde então, o projeto avançou bastante:
- Março de 2025: a Savor lançou oficialmente sua manteiga, primeiro para restaurantes e confeitarias parceiros nos EUA, como os estrelados SingleThread e ONE65.
- Financiamento: a empresa já captou cerca de US$ 33 milhões e busca uma nova rodada para ampliar a produção.
- Escala: a planta-piloto foi projetada para 1.000 toneladas por ano, e a meta é construir uma fábrica comercial de 10.000 toneladas.
- Portfólio: além da manteiga, a Savor desenvolve sebo, gordura de cacau e substitutos do óleo de palma.
A venda ainda é restrita a parceiros selecionados, e a empresa segue no processo de aprovações regulatórias para ampliar a comercialização. Especialistas ouvidos pela CNBC afirmam que o produto é, quimicamente, mais próximo da manteiga de vaca do que qualquer manteiga vegana hoje à venda.
Uma esperança para as florestas tropicais e a vida selvagem
Um dos aspectos mais promissores dessa tecnologia é o potencial de reduzir a demanda por óleo de palma, cuja expansão é uma das principais causas de desmatamento no Sudeste Asiático e ameaça espécies como os orangotangos de Bornéu e Sumatra. Segundo o estudo, a maior parte das emissões e do uso de terra ligados à palma e à soja se concentra em poucos países: a soja dos EUA, do Brasil e da Argentina e a palma da Indonésia e da Malásia.
Substituir apenas o óleo de palma por gordura sintética teria evitado, nos últimos anos, cerca de 450 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano e o uso de 20 milhões de hectares de terras tropicais ricas em biodiversidade. Essas áreas poderiam ser reflorestadas, recuperando habitats e sumidouros naturais de carbono.
Perfil nutricional: o que esperar
Como as gorduras sintéticas são molecularmente idênticas às naturais, o efeito delas no organismo tende a ser o mesmo da gordura que imitam. A manteiga da Savor reproduz a gordura do leite e, por isso, é rica em gorduras saturadas, assim como a manteiga comum. Ela resolve os problemas éticos e ambientais da produção de laticínios, mas não é, por si só, uma opção mais saudável.
A tecnologia, porém, permite em teoria escolher o perfil de ácidos graxos, o que abre espaço para gorduras com mais insaturadas e menos saturadas no futuro. Os autores do estudo também observam que as gorduras sintéticas podem ser produzidas com pureza maior que a dos óleos vegetais refinados que consumimos hoje. Até que essas versões existam, óleos vegetais ricos em gorduras insaturadas, como o azeite, continuam sendo a escolha mais indicada para a saúde.
Custos e desafios
O próprio estudo é franco sobre os obstáculos. Mesmo em grande escala, gorduras sintéticas de alta pureza podem custar de 0% a 20% mais que os óleos de soja e palma, que são muito baratos porque os danos ambientais da agricultura não entram no preço. A aceitação do público é outro desafio: a combinação de "química" e "comida" tem um histórico de desconfiança. Há ainda questões sobre o consumo de minerais e metais nas fábricas, a dependência de gás natural em muitos cenários e o impacto sobre cerca de 1 bilhão de pessoas que trabalham na agricultura, sobretudo pequenos produtores do Sul global, o que exigiria políticas de transição justa.
A Savor afirma que, na escala de 10.000 toneladas por ano, poderá produzir sua gordura a custos competitivos com a gordura do leite. Se isso se confirmar, o argumento econômico pode pesar tanto quanto o ambiental.
Conclusão: um novo concorrente surge
O estudo "Comida sem agricultura" e a chegada da manteiga da Savor ao mercado mostram que existe, de fato, uma terceira via além das carnes cultivadas e dos produtos à base de plantas. Ela não substitui as outras duas, mas pode complementá-las exatamente onde são mais fracas: nas gorduras, que dão sabor e textura aos alimentos e cuja produção agrícola destrói florestas tropicais.
Com emissões menores, uso de terra e água muito reduzido e o potencial de diminuir a demanda por óleo de palma, a síntese de gorduras a partir do carbono pode se tornar uma peça importante do futuro da alimentação. A concorrência entre essas tecnologias tende a acelerar a inovação e a aproximar o objetivo de um sistema alimentar que não dependa da exploração de animais.
Autor: Alex Fernandes
Fontes:
- Davis, S. J.; Alexander, K.; Moreno-Cruz, J.; Hong, C.; Shaner, M.; Caldeira, K.; McKay, I. (2024). Food without agriculture. Nature Sustainability, 7, 90–95.
- Savor. Savor Launches Butter Made Without Agriculture (comunicado à imprensa), 20 mar. 2025.
- Green Queen. Savor Plans Large-Scale Facility to Take on Dairy & Palm Oil with Carbon Butter, set. 2025.
- CNBC. Bill Gates-backed startup Savor wants to reinvent butter without cows, out. 2025.
- Savor. Behind the scenes of our article (blog da empresa).
- Vídeo de apresentação da manteiga da Savor: YouTube.
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