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O Futuro da Saúde e o Impacto Transformador das Novas Tecnologias na Vida Vegana

Ilustração de uma inteligência artificial analisando eventos da vida humana para fazer previsões

Em dezembro de 2023, pesquisadores da Dinamarca apresentaram o life2vec, uma inteligência artificial que trata a vida de uma pessoa como uma frase: cada evento, como um diagnóstico, uma mudança de emprego ou de salário, é uma "palavra". Treinado com registros de 6 milhões de dinamarqueses, o modelo conseguiu prever com boa precisão quem morreria nos quatro anos seguintes. A notícia correu o mundo como uma "calculadora da morte" e levantou uma pergunta que interessa diretamente ao movimento vegano: o que acontece quando empresas passam a usar nossos dados para prever nossa saúde?

O que é o life2vec

O life2vec foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Técnica da Dinamarca (DTU), da Universidade de Copenhague, da ITU Copenhague e da Northeastern University, nos Estados Unidos, e publicado na revista Nature Computational Science. O estudo foi liderado por Germans Savcisens e Sune Lehmann, professor da DTU. A base de dados reuniu registros oficiais de saúde e do mercado de trabalho de cerca de 6 milhões de dinamarqueses, entre 2008 e 2020, anonimizados e mantidos pela agência de estatística do país.

A ideia central vem dos modelos de linguagem. "Assim como as palavras nas frases, os eventos se sucedem nas vidas humanas", explicou Lehmann. Cada acontecimento, como uma internação, uma fratura, uma mudança de cidade ou de salário, vira um símbolo numa sequência que o modelo aprende a ler. Além da mortalidade, o life2vec também conseguiu estimar traços de personalidade que normalmente só são medidos por questionários.

  • 6 milhõesde dinamarqueses nos registros usados para treinar o modelo, de 2008 a 2020
  • 78,8%de acerto ao prever mortes em quatro anos, num grupo equilibrado de pessoas de 35 a 65 anos
  • ~11% melhorque os métodos anteriores, incluindo tabelas atuariais usadas por seguradoras
  • 100 milpessoas no grupo de teste, metade que sobreviveu e metade que morreu

O que o life2vec faz e o que ele não faz

O que ele faz
  • Estima a probabilidade de morte precoce num período de quatro anos, dentro de um grupo específico.
  • Mostra quais fatores pesam: ser homem, ter um diagnóstico de saúde mental ou baixa renda aumentou o risco; renda alta e cargos de liderança o reduziram.
  • Serve como ferramenta de pesquisa para entender como os eventos da vida se relacionam.
O que ele não faz
  • Não prevê o dia ou o ano da morte de ninguém.
  • Não está disponível na internet: os sites de "calculadora da morte life2vec" são falsos, segundo os próprios autores.
  • Não foi feito para decisões de seguro, crédito ou emprego, e pode não funcionar fora da Dinamarca.

O próprio Lehmann tem insistido nesses limites. Ele explica que escolheu a mortalidade como exemplo para chamar a atenção, mas que o objetivo real é criar um debate público. Grandes empresas de tecnologia provavelmente já constroem modelos semelhantes sem divulgá-los, e a especialista dinamarquesa em ética de dados Pernille Tranberg lembra que seguradoras já usam algoritmos para agrupar clientes por risco. O life2vec torna visível algo que já acontece nos bastidores.

Planos de saúde, dados pessoais e o que diz a lei brasileira

No Brasil, a coleta de hábitos de consumo já é rotina. Farmácias e supermercados oferecem descontos em troca do CPF, e esses dados, somados às compras com cartão e a outros registros, formam um retrato detalhado da vida de cada pessoa. Juristas vêm questionando essa prática, que muitas vezes oferece descontos pouco transparentes em troca de dados valiosos.

Seria tentador imaginar que os veganos, por evitarem carne processada e muitas vezes álcool e tabaco, poderiam ser recompensados com planos de saúde mais baratos. Mas essa ideia tem dois problemas graves.

O que diz a lei

Desde 2019, a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) é explícita, em seu artigo 11, parágrafo 5º:

"É vedado às operadoras de planos privados de assistência à saúde o tratamento de dados de saúde para a prática de seleção de riscos na contratação de qualquer modalidade, assim como na contratação e exclusão de beneficiários."

A mesma lei classifica os dados de saúde como dados sensíveis e proíbe seu uso para fins discriminatórios. Além disso, a Lei dos Planos de Saúde (Lei nº 9.656/1998) só permite que o preço varie por faixa etária, além dos reajustes periódicos, e não pelo estado de saúde de cada pessoa. O Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) já considera que usar algoritmos preditivos para diferenciar preços viola a LGPD.

O segundo problema é ético. Um sistema que dá desconto a quem tem "hábitos saudáveis" é, na prática, um sistema que cobra mais de quem não tem. E o próprio life2vec mostra quem estaria do outro lado: pessoas de baixa renda e pessoas com diagnósticos de saúde mental, justamente as que mais precisam de proteção. Os planos de saúde funcionam pelo princípio do mutualismo, em que os riscos são divididos entre todos. Um movimento que nasceu da compaixão pelos mais vulneráveis, humanos ou não, não deveria desejar um sistema que penaliza quem já está em desvantagem.

Veganismo e saúde: o que a ciência diz

Segundo a Academia de Nutrição e Dietética dos EUA, a maior associação de nutricionistas do mundo, dietas vegetarianas bem planejadas, incluindo as veganas, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem trazer benefícios na prevenção e no tratamento de algumas doenças, como doenças cardíacas, hipertensão e diabetes tipo 2.

A palavra-chave é "bem planejadas". Ser vegano não significa automaticamente comer bem: existem muitos produtos veganos ultraprocessados, e a dieta exige atenção a alguns nutrientes, principalmente a vitamina B12, que precisa ser suplementada. Um grande estudo britânico, o EPIC-Oxford, também encontrou maior risco de fraturas entre veganos, o que reforça a importância do cálcio, da vitamina D e da proteína. Informação de qualidade, e não vigilância de dados, é o que realmente melhora a saúde da comunidade vegana.

Como o movimento vegano pode usar a tecnologia a seu favor

A tecnologia pode ser uma grande aliada do veganismo, desde que usada para ampliar o acesso à informação e à alimentação vegana, e não para vigiar pessoas. Algumas estratégias possíveis:

  1. Parcerias com startups de saúde que respeitem a privacidade: apoiar aplicativos de planejamento alimentar vegano, lembretes de suplementação de B12 e receitas, em que os dados fiquem com o usuário e nunca sejam vendidos ou repassados a operadoras de planos de saúde.
  2. Selos que informam o consumidor: certificações como o Selo Vegano ajudam a identificar produtos e serviços sem ingredientes de origem animal e sem testes em animais. Seu papel é informar quem compra, não servir de indicador de risco para seguradoras.
  3. Benefícios coletivos em vez de descontos individuais: incentivar empresas, cooperativas e planos de saúde a oferecer refeições veganas, consultas com nutricionistas e programas de educação alimentar para todos os participantes, sem monitorar hábitos individuais.
  4. Workshops e programas educativos sobre nutrição vegana: organizar palestras e oficinas com nutricionistas, médicos e chefs veganos, voltados tanto à comunidade quanto a profissionais de saúde, desfazendo preconceitos e mostrando como planejar bem uma dieta vegana.
  5. Pesquisa científica com ética: em vez de plataformas que acumulam dados de saúde, incentivar veganos a participar de estudos científicos com consentimento informado e aprovação de comitês de ética em pesquisa. São esses estudos que produzem evidências confiáveis sobre a saúde de quem segue uma dieta vegana.
  6. Opções veganas no ambiente de trabalho: estimular empresas a incluir refeições veganas nos refeitórios e em programas de bem-estar, facilitando escolhas saudáveis e sustentáveis no dia a dia.

Vale também cuidar dos próprios dados. Antes de informar o CPF em troca de um desconto, pergunte-se o que está sendo oferecido de verdade. A LGPD garante o direito de saber quais dados uma empresa tem sobre você, de corrigi-los e de pedir sua eliminação.

Conclusão

O life2vec é uma demonstração impressionante do que a inteligência artificial pode fazer com dados sobre a vida humana. É também um alerta: se um grupo de pesquisadores consegue prever mortes com dados de registros públicos, empresas com acesso a muito mais informação podem fazer o mesmo, e nem sempre em benefício das pessoas.

O movimento vegano tem muito a ganhar com a tecnologia, mas o seu ponto forte nunca foi a vigilância, e sim a informação e a compaixão. Explore o Guia Vegano e encontre receitas veganas, uma lista de restaurantes veganos e vegetarianos por todo o Brasil e artigos de culinária, nutrição e comportamento. Informação de qualidade é a melhor forma de cuidar da saúde, sua e dos animais.

Autor: Alex Fernandes

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