Skip to main content

A Verdade Verde e Amiga da Carteira: Desvendando a Economia das Dietas à Base de Plantas

Cesta com frutas, legumes, grãos e leguminosas, base de uma alimentação vegana econômica

Comer à base de plantas é mais caro? Um estudo feito em Portugal com uma amostra representativa de 1.040 consumidores testou essa ideia e chegou à conclusão contrária: os veganos gastam menos com comida do que os onívoros. Em média, 47,78 euros por semana em casa, contra 75,96 euros de quem come de tudo.

O que o estudo investigou

O estudo foi conduzido por Daniel Francisco Pais e António Cardoso Marques, da Universidade da Beira Interior, e José Alberto Fuinhas, da Universidade de Coimbra, e publicado em 2022 na revista científica Agricultural and Food Economics. A pergunta era simples: quem segue uma dieta à base de plantas gasta mais com comida do que quem come de tudo?

A dúvida faz sentido. Os substitutos de carne costumam ser caros, e frutas e verduras também podem pesar no orçamento. Para responder, os pesquisadores aplicaram um questionário online entre fevereiro e abril de 2021 e montaram uma amostra de 1.040 pessoas representativa da população portuguesa entre 15 e 64 anos por sexo, idade e região. Eles compararam cinco grupos: onívoros, pescetarianos (comem peixe, mas não carne), flexitarianos (reduziram bastante os produtos de origem animal), ovolactovegetarianos e veganos.

Um cuidado importante: os pesquisadores não confiaram apenas no que cada pessoa dizia ser. Eles cruzaram a dieta declarada com o que os participantes realmente comiam ao longo da semana. Dos 40 que se diziam veganos, apenas 26 de fato não consumiam nenhum produto de origem animal.

Os resultados: quem gasta mais e quem gasta menos

As diferenças aparecem também fora de casa: mais da metade dos veganos disse gastar menos de 5 euros por semana com refeições na rua, contra 22% dos onívoros. Mas uma média simples pode enganar. Quem mora sozinho, por exemplo, gasta menos do que quem sustenta uma família, e isso não tem nada a ver com a dieta.

Por isso os pesquisadores usaram modelos estatísticos que levam em conta renda, idade, escolaridade, filhos, número de pessoas na casa, quem faz as compras, se a pessoa cozinha, se compra orgânicos e outros fatores. Mesmo assim, os veganos continuaram com maior probabilidade de gastar pouco e menor probabilidade de gastar muito, em casa e fora dela. O estudo ainda encontrou que:

  • Carne vermelha e peixe encarecem a conta: cada refeição a mais por semana com esses alimentos aumentou a chance de gastar mais.
  • Refeições veganas não encarecem: comer mais refeições veganas não teve efeito estatístico sobre o gasto.
  • Orgânicos encarecem, sobras economizam: quem prefere produtos orgânicos gastou mais, e quem reaproveita sobras gastou menos.
  • Comida pronta não é tão barata: quem consome mais refeições prontas acabou gastando mais, embora elas pareçam mais práticas e econômicas.

E os substitutos de carne?

Muita gente imagina que hambúrgueres e salsichas veganas tornam a dieta mais cara. O estudo não mediu o gasto com esses produtos separadamente, então não é possível dizer, com base nele, quanto pesam no orçamento. O que ele mostra é que, no conjunto, os veganos gastaram menos. A explicação mais provável é que a base da alimentação vegana, com feijão, grão-de-bico, lentilha, arroz, legumes e frutas, custa bem menos do que carne vermelha e peixe, mesmo quando se incluem alguns produtos industrializados. Por isso dá para colocar uma salsicha vegana ou um queijo vegano no carrinho de vez em quando sem culpa.

Nota do Guia Vegano: os resultados vêm de Portugal, onde os preços, os hábitos e a oferta de produtos são diferentes dos brasileiros. Outros estudos em países como Estados Unidos, Suécia e Reino Unido encontraram padrão parecido, mas o ideal é que pesquisas semelhantes sejam feitas no Brasil.

Cesta de alimentos veganos com legumes, frutas e grãosSaúde, sustentabilidade e preço acessível

Os autores lembram que dietas à base de plantas são apontadas por organizações como o IPCC e a Comissão EAT-Lancet como mais saudáveis e sustentáveis. Se elas também forem mais baratas, o argumento fica ainda mais forte. Políticas públicas que unam saúde, sustentabilidade e preço acessível poderiam estimular a mudança de hábitos, ajudar a combater as mudanças climáticas e, segundo os autores, até reduzir a insegurança alimentar em famílias de baixa renda.

Eles também apontam um detalhe menos óbvio, o chamado efeito rebote: o dinheiro economizado com comida pode ser gasto em outras coisas com impacto ambiental, o que reduz parte do benefício climático da mudança de dieta. É um lembrete de que a escolha alimentar é importante, mas não é a única.

Perguntas frequentes

A dieta vegana é mais cara do que a onívora?

Segundo o estudo feito em Portugal, não. Os veganos gastaram em média 47,78 euros por semana com comida em casa, contra 75,96 euros dos onívoros, e a diferença se manteve mesmo levando em conta renda, idade e tamanho da família.

Os substitutos de carne encarecem a dieta vegana?

O estudo não mediu esses produtos separadamente. Ele mostrou que comer mais refeições veganas não aumentou o gasto total e que, no conjunto, os veganos gastaram menos. A base da dieta, com leguminosas, grãos, legumes e frutas, costuma ser mais barata que carne e peixe.

O que mais encarece a conta do supermercado?

No estudo, cada refeição a mais por semana com carne vermelha ou peixe aumentou a chance de gastar mais. Preferir produtos orgânicos e consumir refeições prontas também esteve associado a gastos maiores, enquanto reaproveitar sobras esteve associado a gastos menores.

Esses resultados valem para o Brasil?

Não necessariamente. O estudo foi feito em Portugal, com preços e hábitos diferentes. Pesquisas nos Estados Unidos, na Suécia e no Reino Unido encontraram resultados parecidos, mas faltam estudos equivalentes com consumidores brasileiros.

Quais são os limites do estudo?

O grupo de veganos era pequeno (26 pessoas), os gastos foram informados pelos próprios participantes, a pesquisa não incluiu pessoas com mais de 64 anos e mostra uma associação, não uma relação de causa e efeito.

Conclusão

O estudo português desmonta um dos mitos mais repetidos sobre o veganismo: o de que comer à base de plantas é coisa de quem tem dinheiro. Entre os consumidores analisados, os veganos foram justamente os que gastaram menos, e o que mais encareceu a conta foi a carne vermelha e o peixe. Ser vegano não é apenas uma escolha ética e de saúde; pode ser também uma escolha econômica. Com políticas que tornem a alimentação saudável e sustentável acessível a todos, o caminho para uma mudança em larga escala fica mais curto.

 

Fonte:

Veja também:

  • Criado por .
  • Última atualização em .
  • Acessos 2088